batata e lentilha
Achou estranho entrar no mercado para comprar uma garrafa de vinho. No começo, o plano não parecia ter nada de mal: vou comprar um vinho. Mas, quando entrou no mercado e viu as famílias fazendo compras, achou estranho.
Olhou no relógio que maracava oito horas — da manhã. Talvez, comprar uma garrafa de vinho àquela hora, com tais testemunhas, a faria parecer estranha demais. Respirou com dificuldade, mas foi solidária com a sociedade: quem compraria vinho à essa hora — seria ela a única cliente a comprar um vinho pela manhã? Uma luz esclarecedora baixou e lembrou das duas cebolas que já passavam da hora lá na fruteira de casa. Então resolveu comprar lentilha e batata. Assim, a garrafa de vinho não parecia tão estranha.
Foi para o trabalho com uma sacola maior do que desejava e que o ônibus lotado comportava. Lentilha, batatas, chocolate e vinho. Chegou, abriu o pedestal da mesa do trabalho tirou o laptop e meteu a sacola. A garrafa fez barulho, mas os colegas com fones de ouvido jamais entenderiam o que se passava — ninguém prestava atenção em ninguém, então tudo bem.
Pretendia sair às seis, mas tudo atrasou, então trabalhou até às oito. Durante o dia, entre reuniões, pensava nas batatas sobrevivendo no calor do pedestal — estariam bem? O vinho, sim, passava bem naquela incubadora natural, longe da luz solar, numa temperatura que qualquer sommelier aprovaria — bem guardada no escuro da gaveta.
Enviou o último email, fechou o laptop, abriu o pedestal e a sacola ainda estava lá. Removeu o conteúdo e já não se preocupava com o barulho. Os poucos colegas que existiam ao redor usavam fones de ouvido — não notariam o barulho da garrafa. Meteu o laptop, vestiu o casaco e se foi — carregando a sacola maior do que desejava.
Em casa, desempacotou tudo: lentilha, batatas, chocolate e vinho. Olhou as cebolas tristes e murchas na fruteira, visivelmente deslocadas entre os limões e o gengibre. Abriu o vinho, pegou a taça e tirou o cinto — se deu conta que passou o dia sem respirar direito.
Serviu uma taça de vinho que qualquer sommelier julgaria incorreta: quase transbordando. Sentou no sofá e a frase realmente fez sentido: ao vencedor as batatas!
