o tempo não tem pena

Gabi Favarini
Jul 27, 2017 · 2 min read
image: kathrin honesta

Desligou o chuveiro, pegou a toalha e saiu.

As luzes estavam apagadas no corredor. O silêncio se fazia notar na casa de três cômodos. Com um fio de esperança, ela caminhou pela casa tentando encontrar alguém. Passou os olhos em cada ambiente: ninguém. Voltou para o quarto, sentou na cama e deixou a solidão tomar conta.

Pela primeira vez, sentiu a cama grande demais.
Pela primeira vez, sentiu o sufoco de um espaço tão grande.

Tirou a toalha, colocou a camiseta e nem secou o cabelo. Evitou sair do quarto. O mundo lá fora era muito assustador. Encarou o guarda-roupa com uma angústia de doer. Ali dentro, as roupas eram só dela. Nem sequer uma gaveta compartilhada ou uma prateleira alheia bagunçada. Deitou na cama que já não tinha lados. Definitivamente, a cama era grande demais. Limitou-se a ocupar um cantinho e evitou mexer-se tanto. O movimento trazia a lembrança de que ela estava sozinha.

A noite olhava a cena pela janela. O sono não chegava. Ligou o radio suplicando por companhia. A música tocou e a saudade nem pediu licença. Resolveu se render e deixou a canção invadir seu corpo, trazendo o choro e embalando o sono.

Um novo dia ia nascendo. O calor do sol esquentou a cama e ela despertou no travesseiro úmido de uma manhã indesejada. O dia crescia, enquanto o seu peito diminuía, em um aperto sem fim. O vazio ecoava nos cantos da casa e reforçava o que ela sabia. É verdade, ela pensou. O tempo não tem pena e o amor não se demora.

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