plano de fuga

spoiler: não deu certo

run gabi run

Eu comecei a faculdade com 18 anos e, no mesmo ano, também fui trabalhar. Primeiro dia no emprego novo e eu já pensava na desculpa pra nunca mais colocar meus pezinho ali. Afinal, aquele trabalho não me preenchia e eu não me via trabalhando numa rotina de escritório para o resto da vida. No horário do almoço, com toda a maturidade de quem tem 18 anos, eu já sabia que aquele não era meu emprego dos sonhos.

O Alasca me aguarda

No dia seguinte, eu ligaria para a empresa e diria algo do tipo: "não vou mais, algo aconteceu, preciso ir para o Alasca visitar um parente", ou algo do gênero. Claro que eu não comentei nada com a minha mãe. Imagina que chato seria alguém interferir no meu plano de fuga.

Super resolvida e de pijamas

Enquanto minha mãe se arrumava para trabalhar, eu estava bem resolvida nos meus pijamas. Ela estranhou e perguntou se eu não ia me atrasar. Contei que ficaria em casa e expliquei que aquele não era o trabalho dos meus sonhos e que eu não me sentia preenchida naquele escritório. Contei que eu ligaria para a empresa, afinal, sou uma pessoa responsável — pelo menos uma ligação, né.

Aprovação materna

Fiquei esperando aquela aprovação materna seguida da frase de que tudo ia ficar bem. Minha mãe me abraçou e disse: “Eu entendo, filha. Agora, você vai se vestir, pegar o ônibus e contar seus motivos pessoalmente pra pessoa que te contratou, ok?". Paralisada, eu vi meu plano de fuga escorrendo pelo ralo.

Tentei encontrar uma brecha

No fundo eu sabia que ligar era a forma mais "fácil" de resolver. Paralisada e com o choro trancado, me vesti e saí. Cheguei atrasada e, ao longo do dia, tentei encontrar uma brecha pra falar da minha desistência, mas essa brecha não existia. O que existia era um medo: de ser descoberta, de ser incapaz, de não conseguir, de ser uma impostora. Medo que veio em uma linda embalagem onde lia-se desculpas convenientes — ótimas parceiras para reforçar o quanto seria legal desistir e esperar por algo mágico.

Troquei as rodas com o carro andando

Como você pode imaginar, não, aquele não era o emprego dos meus sonhos (isso existe?), mas eu aprendi muito, muito mesmo. E, principalmente, o que eu aprendi indo, enfrentando e me expondo, o sofá de casa jamais me ensinaria. Então, vai tocando, faz errado, faz de qualquer jeito se precisar: mas faça alguma coisa, mutley. Tem o caminho inteiro pela frente pra ajustar, apertar, mudar. Viver é, muitas vezes, trocar as rodas com o carro andando.


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