somos todos lagostas em alto mar

Você já deve ter ouvido falar da vida evolutiva da Lagosta.
A lagosta tem um corpo mole e vive dentro de uma casca dura, uma casca que, ao contrário do interior, nunca cresce ou expande. De tempos em tempos, para crescer, a lagosta precisa quebrar a casca dura para se libertar. Ela deixa para trás a sua antiga casa e precisa criar um novo exoesqueleto para se proteger.
Passamos por um processo similar ao da lagosta, também nos sentimos pequenos ou presos dentro de uma casca que não serve mais. Passamos pela fase do desconforto e do aperto, quando nosso corpo mole tenta se moldar e se ajustar àquela casca que insiste em sufocar.
A psicanalista francesa Françoise Dolto, chama de “complexo da lagosta” esse processo de mudanças. Estamos confortáveis vivendo na nossa casquinha até o momento em que precisamos expandir, não queremos, mas precisamos. É dolorido perceber a casca pequena, quebrar a casca parece difícil e é ainda mais dolorido a fase em que nosso corpo, mole e indefeso, fica exposto.
Sem casca, sem proteção e indefesos, o mundo é um mar aberto que faz a gente sentir na pele qualquer mudanças de maré ou correnteza mais forte.
Assim como a lagosta, precisamos quebrar as paredes em busca de mais espaço, mesmo que o preço seja o desconforto. Depois, passamos pelo período da adaptação na casa nova que parece espaçosa, até que a gente resolve começar tudo de novo. E talvez a vida seja lidar com esse processo que, apesar de dolorido, é natural e necessário para evolução.
Aceitar que não temos a garantia de quando ou se vamos, um dia, nos contentar com a nossa casca atual, faz parte da vida. O escritor Guimarães Rosa tem uma frase muita bonita, uma das minhas preferidas, que é assim:
“O importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam”.
A lagosta não está pronta e precisa da quebra para se libertar. Do contrário, ela tem a opção de morrer na própria casca. Essa escolha só pertence à ela. E o mesmo é com a gente. Podemos quebrar, sair e buscar um novo espaço para chamar de lar. Ou, podemos morrer na primeira casa.
Como disse Guimarães, as pessoas não estão sempre iguais. E acrescento aqui que nem mesmo a lagosta está.
Que casca seja also a ser quebrado e não àquilo que ofusca a beleza de se estar em mar aberto.
um mar chamado vida.
