ENQUANTO OS SAPATOS SECAM

“Chuva intensa de uma hora causa alagamentos em Porto Alegre”. “Chuva forte provoca alagamentos e transtornos em Porto Alegre”. “Chuva alaga ruas, arrasta carros e escola fica sem aulas em Porto Alegre”. No final do dia 19 de novembro de 2015, estas eram as manchetes dos canais online Zero Hora e G1. A cidade estava um caos. Mariana Bertolucci entra em uma sala de aula cheia de alunos de Jornalismo com alguns perdoáveis minutos de atraso. Sem sapatos, cabelos encharcados, cara lavada e um bom humor surpreendente. Sem dúvidas, os 15 anos de profissão como jornalista já lhe renderam dias bem piores. Ela estava acostumada.

Mariana fala bastante. Por vezes, pede pra ser interrompida, ri e diz que não consegue parar de falar. “Imaginem o quanto eu escrevo. É bem difícil encaixar na revista, que é tão pequeninha”, desabafa. A “faz-tudo” e também proprietária da revista Bá é quem produz as matérias, sempre baseadas em histórias. A palavra-chave do seu projeto é ser “eclética”. A revista precisa ser eclética e trazer histórias diferentes de pessoas diferentes que falem sobre assuntos diferentes.

Repórter da Zero Hora durante 15 anos, Mariana conta que foi demitida de repente. Sem mais nem menos, como a jornalista explica.

Na época foi como se, depois de tantos natais, aniversários, apresentações na escola da filha pequena, viradas de ano e momentos em família perdidos, ela fosse facilmente substituível. “É bem mais fácil para quem está começando. Quem quer contratar uma jornalista com 15 anos de experiência? Nós custamos caro, não somos profissionais multimídias como os recém-formados. Perdemos nosso espaço”, reflete. Independente desta realidade, ela diz que o maior erro do jornalismo é a desilusão. Munida de esperança, vontade e crença, Mariana acredita que o trabalho precisa fazer as pessoas felizes.

Ela assume que comete erros, que é difícil cuidar do financeiro, da impressão, das entregas, das entrevistas e de toda a burocracia que uma revista exige. Mas garante que é por amor. Com quase três anos, a edição número 12 da Bá foi a primeira que deu lucro. Agora, chegou a hora de a Bá andar com as próprias pernas.

“Eu não queria ser empresária, só queria ser jornalista”, diz Mariana enquanto confere se seu sapato já está seco. À medida que se sente mais à vontade, larga um ou outro palavrão seguido de desculpas. Escreve para posicionar as pessoas. Para entregar visões de mundos. Para diminuir as agruras da rotina. Com um vocabulário impressionante, a colorada reforça seus desafios. “Trabalhar em casa é escrever um parágrafo e, quando se dá por conta, estar dobrando roupas”. Ela confessa que falta disciplina, organização e foco. E que, mesmo assim, tudo funciona.

Quinze anos no maior jornal do Rio Grande do Sul traz boas histórias sobre reportagens. Apesar de falar muito, Mariana não fala sobre isto. Sem revelar a idade, também deixa de lado a vida pessoal, lembrando apenas da importância da filha de 10 anos e de como ela se arrepende de ter perdido tantos momentos importantes em função do jornalismo.

Em uma mistura de aula, conversa e confissões, Mariana conforta-se em uma cadeira de universitários para abrir seus medos sobre o projeto que tem norteado sua rotina, a revista Bá. Para o futuro, poucos planos são revelados: estabilidade comercial e foco na internet. Se pudesse parar de fazer algo que faz hoje, seria a venda de anúncios. Por eliminatória, Mariana Bertolucci encontrou o trabalho dos seus sonhos. “Não posso virar blogueira. Imaginem o fiasco do look do dia. Meu melhor texto não era a reportagem de impresso tradicional. Tive que me reinventar”, termina o assunto, quando sai atrasada para outro compromisso, com os sapatos secos e bolsa de grife.