O DEBATE NA INTERNET E A SAÚDE EMOCIONAL

Eu já fui uma tretista de internet de mão cheia. Debater era um exercício excitante. Apareceu um troll? Que mandassem pra mim, que desmonta-lo seria minha missão. Mas aos poucos fui parando, evitando. Não me sinto silenciada, apenas prefiro escolher com muito cuidado as minhas batalhas, direcionar a minha energia pra onde ela não será desperdiçada, o fato é que as discussões se tornaram cada vez mais agressivas, os trolls costumam estar organizados, agir em bandos embora o ataque muitas vezes venha de pessoas ali do seu “movimento” que já se aproximam com os punhos cheios de pedras. Estamos em tempos de ânimos aflorados, mas eu acredito que este não o maior fator pra que essas experiencias sejam tão torturantes.

Acontece de você postar uma opinião em determinado momento, assistindo a televisão por exemplo e minutos depois ser cobrado a dar explicações sobre, isso tudo com a sua militância e até sanidade e dignidade questionados, os 140 caracteres espontâneos de repente estão em um tribunal e você, réu, tem que apresentar provas infinitas de toda a sua vida (inclusive escrever o lugar de fala na testa) pra não ser declarada culpado. Honestamente, demorou um tempo pra que eu identificasse esse tipo de situação e não me sentir obrigada a prestar contas do meu feminismo pra qualquer um, mas no fundo, o que mais me incomoda, não é o fato dessas coisas acontecerem, mas o porque essas coisas acontecerem.

Primeiro culpo a repressão do livre pensamento, a repressão que está em toda esquina e em todo o movimento, em toda vertente política. Todos falam de liberdade, mas poucos sabem lidar com ela e entender que pra que um pensamento se consolide ele precisa percorrer seus caminhos, ele precisa de questionamento e auto-questionamento. Males talvez de uma militância rasa de cartilhas, bordões e discussões ganhas no ata. E ser reprimido em ambientes que deveriam te dar asas dói.

Segundo e acredito que aqui está o que é mais danoso para a saúde emocional é a linearidade do pensamento hegemônico, como que pra fazer valer teorias e posições a lógica aristotélica prevalece, ignorando as complexidades sociais e humanas, o resultado de tudo isso é o encarceramento em estereótipos. E estereótipo adoece a alma. Por que o estereótipo desumaniza, encarcera, o eu é todinho ceifado em uma imagem morta. O estereótipo é uma pequena morte social reservada a minorias (pois os dominadores tem o seu direito a diversidade intacto) e de repente você se vê ali lutando pelo seu direito de existir e ser.

Enquanto negra, cercada de imagens construídas sobre mim por todos os lados que pouco ou nada me dizem respeito, lutando por uma existência material, eu resolvi deixar a internet pra me divertir e me informar e reduzir as tretas ao máximo, simplesmente por que com o tempo comecei a descobrir o que eu quero e assim pude escolher minhas batalhas.