Quando o feminismo se perdeu em superficialidades

Existe um risco muito grande em fazer o recorte “mulheres dentro do padrão” ao se dizer que estas mulheres são privilegiadas pela sociedade patriarcal. Este risco é o de se perder na superficialidade. Alias, a extrema fragmentação do discurso feminista corre o risco de cair na superficialidade.

Explico: é comum eu ver em textos ou mesmo falas cotidianas o combo “mulher magra, loira, dentro dos padrões de beleza” acompanhado com um argumento de que está tudo bem pra elas, que elas precisam menos do feminismo que mulheres pobres e negras, gordas ou fora do padrão (e aqui eu vejo a confusão grande com a luta de classes ou racial, mas é assunto para outro texto), como se tudo estivesse bem para essas mulheres, como se o discurso machista provindo delas viesse de seu status e não de sua esfera social, não daquele condicionamento histórico de mentalidade.

Ir por este caminho pode colocar na aparência as causas da opressão (ou mesmo da libertação e emponderamento feminino), mera ilusão. Ter um lugar ao sol no patriarcado pela beleza não te livra de opressões, só te expõe a determinadas opressões, sendo objeto ainda te coloca na divisão de papéis pré-estabelecidas por uma estrutura que mantém a mulher no segundo plano, no âmbito da submissão. Ser bonita, magra, loira, alta, desejada, ou qualquer relação com a aparência que vejo citarem como privilégios da mulher não rompem com as estruturas do patriarcado, pelo contrário, o alimenta. No fundo, estas mulheres não estão livres do papel social a elas concebidos, seja o de ser objeto e afirmar a imagem da passividade feminina.

Tanto não rompe com estas estruturas que mulher tida como bonita também morre. Mulher lida como bonita também é violentada, também é vítima das demonstrações de poder da masculinidade, também é reprimida, tolhida do ambiente público, lembrada constantemente de sua posição. Se a mulher das classes altas podem driblar o sistema e não andar pelas ruas, se protegerem mais, estudarem mais, elas não estão imunes às doenças e cicatrizes psíquicas (ou físicas) deste ambiente doentio criado por uma sociedade injusta para mulheres.

Vejo esta superficialidade de visão como resultante de um discurso que relativiza o poder, que não entende a mulher como classe. Enquanto estamos discutindo quem o mercado contempla com base pra pele as mulheres estão morrendo, estão morrendo nas favelas, estão morrendo nas universidades, estão morrendo nos condomínios. E aqui vejo o risco crucial de perder a noção de classe, e mais, de não se preocupar em pensar nas raízes da opressão, de dissecar as estruturas e pensar sobre as origens desta condição e por consequência em uma solução. Não importa a classe social ou raça da mulher, ser mulher sustenta uma estrutura chamada patriarcado.

Há ainda um outro risco: o de acreditar que a beleza padrão pode trazer felicidade, conforto e te livrar da angustia, do amargo da vida. Parece obvio isso, mas é absurda o quanto que eu vejo de textos colocando como se estivesse tudo bem para a mulher magra, para a mulher desejada. Isto é ilusão, acreditem, estamos todas no mesmo barco.