#03-These are what they call hard feelings of love

Um belo dia, eu arrumei um namorado.
Eu, que sempre fui a solitária do rolê em todos os rolês.
Eu que estava sempre solteira sim, sozinha também. Eu, que sofri, sofri muito, sofri textos e blogs inteiros por pessoas que provavelmente sequer lembram meu nome. 
Já amei tanto, mas tinha sido pouco ou pouquíssimo amada de volta. 
E aí teve esse dia em que eu arrumei um namorado. 
Justamente diante da comparação do que havia acabado de acontecer, tantos meninos indiferentes, indecisos, frios. Joguinhos mentais, eu enlouquecida olhando qual foi a última vez que a mensagem foi visualizada, mostrando trechos das conversas pros amigos, reunindo pequenos pedaços de afeição para sustentar a ideia de que sim, não parece, mas ele gosta de mim, e depois descobrindo que não, não gostava não, quem diria, diante desse cenário, o namoro e o namorado pareciam enfim tudo que eu esperei e desejei por tanto tempo.
Alguém que me amava e não se esquivava diante desse sentimento, muito pelo contrário, fazia questão de pendurá-lo na parede como uma obra de arte. As pessoas vinham me falar toda hora como ele parecia tão apaixonado, tão entregue, tão sincero, tão diferente de todos os outros.
Eu mesma, novamente colecionando troféus, contando piadas nossas, encantando todos com a personalidade afetuosa e doce do meu namorado, todos apaixonados junto comigo, todos felizes e eu saindo da caverna de Platão, os olhos brilhantes, então isso é que é amor?
E eu esse tempo todo achando que era outra coisa.
Que idiota.
Escrevi mais textos exaltando e decifrando e querendo ensinar às pessoas como era quando era de verdade, esse é o segredo que ninguém te conta, vejam, venham todos, clique aqui e saiba mais, meninos, vocês não sabem o que eu descobri.
Aí, a primeira briga.
A primeira reconciliação, logo depois.
E depois a segunda briga. E outra. E mais outra. E mais 40, 50, um zilhão de outras brigas, mais brigas por minutos do que existem minutos no dia. 
Eu não entrava em muitos detalhes com meus amigos sobre as brigas.
Não queria destruir a bela imagem que eu havia criado, meu relacionamento era saudável e limpo, novinho em folha, ele é um cara legal, eu conheço a mãe dele, ele me ama tanto, não é bem assim, veja bem, já tá tudo resolvido.
Só muito tempo depois de terminar, eu contei detalhes das brigas pra alguns amigos, mesmo com vergonha, e o espanto foi geral. 
Ele fez isso?
Nem consigo imaginar.
Quem diria. 
Com aquela carinha.
Até hoje, eu não sei bem dizer o que ele fez e o que ele poderia fazer, se tivesse tempo necessário.
Mas ainda bem, mesmo pouco, foi suficiente para me fazer querer ir embora e para me deixar traumatizada com relacionamentos, com o amor e com tudo que existe ligando uma ponta à outra. 
Anunciei pros outros e pra mim mesma que iria ficar sozinha, o que nem era um grande anúncio já que esse é meu estado natural.
Mas aí, roda vinheta, a vida tinha planos próprios, como sempre tem, e ai de nós que achamos que estamos no controle de algo aqui. Não estamos.
Eu me descuidei e me apaixonei de novo.
Estava atenta, insone, olhos arregalados no escuro em vigília para não deixar ninguém passar sem autorização.
Mas passou. 
Confessei meu pânico, chorei, tremi de medo de verdade e não só metaforicamente, fiz mais confissões e recebi uma risada gostosa de volta. 
Dormi e quando acordei, já era. 
Pulei do tal trampolim e nem percebi, acordei com a cabeça fora d’água, inteira, ilesa, feliz.

(Continua)

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