Demolição

Aquele prédio em que você morava

Que era perto do meu trabalho

E eu pensava “Aqui é do lado do meu trabalho”

E eu não atrasava nunca quando dormia lá

E não tinha que passar da linha verde para a azul

No metrô

Aquele mesmo que depois que a gente terminou

Eu passava na frente e lembrava e odiava

E pensava

“Aqui é do lado do meu trabalho”

Lembrar que a mesma Avenida do Café

O mesmo elevador

O mesmo porteiro

Me viu desde a primeira vez

Tímida, insegura, topando ‘ir lá em casa ouvir umas músicas’

Mesmo sabendo que a gente não ia ouvir música nenhuma

Mas até que a gente ouviu.

O mesmo prédio me viu chegar às dezenove de uma terça

E sair às oito na quarta

E voltar na quinta seguinte

E só ir embora no domingo de noite

Porque tudo estava ainda começando.

O seu porteiro, não sei se ele lembra

Mas me viu entrar bêbada, correndo da chuva

Me viu chegar sorrindo e contando histórias

Depois me viu ir embora em silêncio, sozinha

Respirando fundo pra só chorar quando estivesse perto da Consolação, pelo menos

Segura um pouco mais.

Me viu também sumir

Depois voltar

Se não tinha muito em que pensar e gostava de acompanhar a vida dos moradores, pensou

“Será que agora acabou?”

Mas não

Só acabou um pouco depois

Quando paramos de ir naquele mercadinho do lado da farmácia

Comprar macarrão, suco de uva, a comida do porquinho da índia

E duas barras de chocolate com amendoim

“Essa a gente divide. Essa aqui eu vou ficar pra mim.”

Infelizmente, o prédio nunca viu a nossa despedida

Porque nenhum outro edifício também viu

Porque ela nem chegou a existir

Quem viu mesmo foi a linha amarela, que sempre me vê nos piores momentos

Como naquela noite em que sentamos no banco e falamos coisas horríveis

Ou eu fui só eu que falei, não lembro bem, talvez tenha sido

Aos gritos, soluçando, implorando pra você ir embora

E uma hora o trem chegou e você disse

“Não vou perder essa oportunidade.”

Essa oportunidade de ir embora, finalmente

Pra longe de mim.

Eu queria que em vez disso

O seu prédio tivesse visto um abraço e um sorriso nosso

Os degraus ali da frente, o hall, a portaria

Todos concordando que tivemos bons momentos naquele lugar

Mas agora acabou.

E vamos em paz quem sabe procurar outros prédios

Outros elevadores onde poderíamos, bêbados ou sóbrios mesmo

Beijar a pessoa do nosso lado até chegar no terceiro andar

Ou só olhar pra elas, quietos, felizes

Que nem fazíamos no seu prédio.

Poderíamos também ficar em casa, tranquilos

Esperando as lembranças irem embora sem dor nenhuma.

Mas infelizmente não fui eu que escrevi o final dessa história

E tantas outras coisas aconteceram entre o meio e o fim.

E tantas outras vezes eu passei perto do seu prédio o suficiente

Pra lembrar e odiar e achar tão perto

E tão errado que tudo tenha mudado, até mesmo nós

E o mesmo prédio continuasse ali, imóvel, com o mesmo porteiro

As mesmas vigas e tijolos e argamassa e traças que nos viram

Agora vendo você, ela e todo o resto.

Depois, mudei de emprego

O tempo se acumulou em cima dessa história que nem o mofo

Na única camiseta sua que eu roubei e deixei guardada no fundo do armário.

Cheguei a achar que nunca ia esquecer você

Esqueci.

Passei ali na Santos Dumont outro dia e o seu prédio havia sido demolido

Acabaram-se os degraus do hall, o elevador, seu quarto, seu chuveiro

Os tijolos, argamassa, até mesmo as traças

Acabamos nós, há tanto tempo

Pisando no chão onde um dia o Edifício (Da vinci? Michelângelo? Leonardo?) se ergueu

Senti como se houvesse ali um mapa em neon como aqueles de shopping indicando o primeiro

segundo, terceiro piso.

Com um x e uma seta dizendo “Você está aqui.”

Mas não estou mais.

Mudei.

Demoli.