Esporte de Aventura

Para o olhar do observador inexperiente, o grande perigo da escalada é a altura. As condições climáticas da montanha, que podem mudar em segundos. O vento que pode te derrubar lá de cima ou a rocha que pode ceder, desprendendo o mosquetão. Mas a vertigem, o pé que escorrega do lugar onde deveria estar e a solidão do cume não são nada perto do terrível temor de ter que confiar nas marcações de antigos escaladores para seguir o caminho mais inteligente em terras verticais desconhecidas.

O verdadeiro truque está em não querer almejar a pretensão de se estar no controle de tudo. Meu amigo, essa é uma montanha, afinal de contas. Você nem deveria estar aqui, para começo de história, se soubesse o que é bom para você. Mas já que veio, admita que a natureza é quem manda e você é apenas o fiapo de carne humana no buraco do dente da pedra.

E já que alguém, esperemos, mais forte, mais esperto e com melhores ideias que você passou por aqui antes, o jeito mais prático é confiar cegamente nas suas instruções silenciosas. Pise aqui, que nem eu pisei. Segure lá e não acolá, porque assim eu quase caí. Isso. Desse jeito. Assim é bom. Assim você chega lá em cima mais rápido do que eu cheguei e talvez volte vivo pra contar essa história, que nem eu, que não voltei.

Da mesma maneira, relacionar-se com alguém guarda lá suas semelhanças com o tal esporte de aventura. É preciso confiar cegamente em quem passou aqui antes e talvez não tenha sobrevivido, mas fez o melhor que pôde, com certeza.

Confiar na moça que marcou o seu caminho à unha onde eu estou agora, deixando um rastro de grampos abertos e fios de cabelo enrolados no chão. Esperar, com algum otimismo, que ela tenha lhe ensinado direitinho como usar a língua e o guardanapo, a divisão da conta e os 10%, o lado certo pra dormir na cama, o jeito certo de não monopolizar o lençol e nunca, jamais esquecer que existe alguém dormindo ao seu lado, movendo-se estabanadamente, um cotovelo na costela, uma joelhada acidental, um estapeamento qualquer. Mas, caso ocorra, que também tenha lhe orientado na arte do pedido de desculpas sonolento, da conchinha que visa comunicar “eu lembro e gosto que você esteja aqui, agora”. Educado.

Nos resta então esperar que ela nunca tenha fingido nada, que nunca tenha se calado para não incomodar, que não tenha tido medo de reclamar, de cobrar, de falar o que pensa. Que tenha feito ele suar um pouco, esforçar-se de verdade, assumir um compromisso e não ter reservas a fazer-se vulnerável.

Desse modo, a minha subida será mais agradável para nós dois. Para mim, que chego mais rápido onde quero e devo, pra ele, que sentirá menos o peso do martelo e do mosquetão. (Falando assim, o processo todo parece bastante cruel, eu sei. Mas só montanhas que nunca foram escaladas são livres de marcas, lembre-se.)

Gosto de pensar que também deixei as minhas aqui, mesmo que não sejam tão claras ao olho do observador inexperiente. Será preciso chegar perto para entender minhas instruções silenciosas. Isso. Num futuro próximo, você pisará aqui, que nem eu pisei.

Devo avisar então, que se você estiver lendo isso, é porque eu cheguei até o cume e apreciei a vista. Finquei a bandeira com minhas iniciais, como manda a etiqueta. Você sabe, você viu todas as marcações. É, foi incrível mesmo. Sim, sim, existem muitas outras montanhas pra explorar em breve, claro, eu sei. Outras marcações para seguir, o vento e a gravidade para desafiar, as mãos e pés que doem, mas não cedem, as histórias de escalada para compartilhar.

Mas antes, antes de tudo, eu preciso saber como faço pra descer daqui.