Gilmore Girls: A Year in The Life ou Como foi voltar a frequentar Stars Hollow em 2016

Voltar pra casa nem sempre é bom.

Pode acontecer de você, por ter passado um tempo longe, ser inundado por uma nostalgia que borra a visão e te faz lembrar da sua casa como um lugar maior e melhor do que ela de fato era. Sua memória afetiva te trai na hora da precisão dos detalhes e a qualquer momento você se pega contando pras pessoas sobre como o estilo da fachada antiga nem existe mais ou quando você e seu pai pintaram juntos a cerca do quintal num domingo ensolarado com muitas risadas e limonada gelada.

Então, no feriado de Natal, você desce do ônibus com a mochila nas costas e uma ansiedade no estômago, totalmente preparado para matar todas as saudades cultivadas com carinho nos anos de distância.

Mas o estranhamento chegou antes de você e se esparramou pela sala, pelas paredes, até chegar na tal fachada. Você começa a se sentir um pouco como a Alice no País dos Horrores. Será que essa porta sempre foi tão pequena ou eu que cresci e não consigo mais passar por ela? A cor da sala sempre foi mesmo esse amarelo-cor-de-morte e eu achava bonito? E o que diabos essa cerca velha ainda está fazendo aqui, pelo amor de Deus?

Assistir o revival de Gilmore Girls, A Year in the Life, nove anos após o final da série clássica foi mais ou menos assim. Na verdade, reassistir todas as temporadas anteriores em 2015 e 2016, muitos anos depois de ter acompanhado em tempo real o seriado, já trouxe uma porção bem servida de desconforto, junto com os cafés pra viagem do Luke’s Diner.

Como boa parte da audiência mundo afora, eu amo Gilmore Girls porque me identifico com Gilmore Girls. Ver essa menina que passa boa parte da sua vida útil com o nariz enfiado num livro, sonhando em escrever e se tornar uma grande jornalista se aventurando mundo afora, acreditando ser especial o suficiente para encontrar portas abertas e um futuro brilhante à sua frente é o tipo de comportamento com o qual eu posso facilmente me identificar. Da mesma maneira, ser uma filha tão diferente da sua mãe, ter que lidar com as diferenças e brigas sem perder o contato com quem se ama e usar um certo tom de rebeldia disfarçado de independência também é um outro oposto que me contempla, já que espero ser um personagem tão cheia de nuances e facetas quanto as garotas do título.

Mas mesmo amando as meninas Gilmore, terminando de reassistir as temporadas seis e sete, uma pulga começou a se alojar atrás do meu lóbulo esquerdo, mas só agora, no revival, eu finalmente despertei para a realidade fora das fronteiras de Stars Hollow.

Acontece que Lorelai 1 e Lorelai 2, têm como seus grandes trunfos o narcisismo e o sarcasmo bem envolvidos numa dupla camada de charme. Nós amamos as duas por isso, mas também são essas características que as deixam insuportáveis. E foi desde o primeiro minuto de “Winter” até as famosas últimas quatro palavras de “Fall” que eu me permiti alguns questionamentos que não deveriam ser feitos quando se ama um seriado assim.

Lorelai e Rory sempre se sentiram tão superiores ao resto do mundo assim, incluindo os habitantes da cidade que elas tanto dizem adorar?

Até onde suas piadas, incluindo as gordofóbicas e sexistas, deixam de ser engraçadas e viram apenas ofensas e crueldade?

Luke, um dos meus coadjuvantes favoritos de todos os tempos, era apenas adoravelmente ranzinza ou sempre foi essa pessoa mandona e agressiva com quem a convivência deve ser no mínimo desafiadora?

Era mesmo imprescindível que a história de Lorelai sobre seu pai fosse aquela, só para mostrar que eles eram distantes e que ela não se sentia confortável naquele momento, exatamente quando sua mãe perdeu o marido após cinquenta anos de casamento?

E, finalmente, em algum momento do futuro próximo, Rory vai começar a desenvolver sentimentos humanos de culpa ou algum tipo de auto-questionamento sobre sair com um cara casado ou isso é completamente normal no mundo de quem se julga uma pessoa muito, muito diferente dos reles mortais?

Lendo os textos incríveis que povoaram a internet nesses dias, sendo Gilmore Girls essa série que impulsiona discussões tão interessantes (vou linkar todas as referências para a base desse texto), eu pude compreender melhor a série e me sentir menos sozinha entre as fãs que continuam amando o universo de Amy Palladino sem se tornarem cegas aos problemas óbvios do show.

É fato que Rory, como a típica Millennial que é, foi ensinada a acreditar que era merecedora de um destino extraordinário por ser supostamente a menina de ouro de Stars Hollow e o último floquinho de neve especial antes do inverno.

Seguindo essa trajetória, a série acerta em mostrar os momentos em que a vida trata de mostrar à garota que a neve é feita de milhares de floquinhos de neve, todos eles únicos e alguns até mais esforçados e privilegiados do que ela. Tanto na temporada clássica, como aqui, ver Rory fracassando magistralmente é um conforto para nós, que podemos entender que nossos grandes futuros promissores de meninas nerds serão perdoados em nome da nossa humanidade, quanto para a própria personagem, que precisa de um choque de realidade para se tornar mais crível e menos cansativa.

Da mesma maneira, ver Lorelai, que sempre se safa das suas pisadas de bola com algum charme e meia dúzia de piadas sagazes finalmente ir longe demais, até pra ela, nos acalma no sentido de mostrar que ao contrário do que cantaria Cazuza, não, nem sempre as mães são felizes. Elas também se questionam, entram em crise, fazem “Livre” (book or movie?), se arrependem e voltam atrás. É nas falhas de Lorelai que a série acerta na mosca e volta a pairar acima da média.

Atribuo ao toque de um quase realismo fantástico que cerca a cidade das duas Lorelais o sentimento de que por ali, pouca coisa mudou, mesmo após tantos anos, para o bem e para o mal.

Ao mesmo tempo em que é bom notar que as personagens continuam densas e complexas, também é insatisfatório perceber que elas quase não presenciaram uma evolução emocional, destinadas a repetir os mesmos erros em looping atualizando apenas as referências pops nos diálogos (saem os filmes dos anos 90, entram os seriados da Netflix), em uma imobilidade semelhante à que a própria série parece orgulhar-se em ostentar.

Mesmo após quase uma década, Stars Hollow continua majoritariamente branca e heterossexual, com apenas uma ou outra inserção de minorias (que deve ter sido baseadas nas críticas a esse aspecto da série), sem nenhuma justificativa plausível para que a cidade tenha congelado no século passado. Se houve tempo suficiente para incluir as alusões aos filmes da Marvel e Game of Thrones, e sabemos que a Netflix não possui sequer metade da caretice do canal original CW nos anos 2000, então por quê uma série que tornou-se referência em conteúdo feminista insiste em rir de pessoas gordas ou manter-se tão dentro do padrão branco-hetero-cristão americano?

E afinal de contas, por quê Rory teria vivido e passado por tanta coisa durante a temporada clássica e o tempo antes desse revival, para não só continuar a mesma millennial mimada de sempre, como também ter o seu desfecho reprisando exatamente o mesmo destino da sua mãe, como uma espécie de final de novela das 21h da Globo onde as protagonistas, antes cheias de sonhos e personalidade, concluem suas narrativas virando mães de família (Lane e Sookie, aquele abraço). E ainda, provavelmente uma das questões mais incômodas que nós, fãs, cultivamos: ter dinheiro e status social, principalmente o dinheiro antigo que vem de herança e nome, como o dos Geller, dos Gilmore, dos Huntzberger e até o do Christopher, é mesmo apenas uma ‘’característica’’ pitoresca dos personagens para ser usada em situações engraçadas e corriqueiras, sem nenhuma problematização envolvida? Um grupo de garotos brancos e ricos alugando uma pousada inteira e comprando clubes de tango era pra ser um plot interessante? Emily finalmente aprendeu a tratar um funcionário como algo semelhante a um ser humano?

Pelo visto, não é só a poeira acumulando em cima dos livros velhos da Rory que cheiram a anos 90.

Crescer é superestimado. As calças que deixamos na gaveta há um ano, no verão antes da faculdade, de repente não nos servem mais. A cama de solteiro na qual dormimos a vida inteira agora deixa nossos pés desconfortavelmente do lado de fora. Crescemos tanto que viramos gigantes, nossos braços escapando pelas janelas, nossa cabeça furando o teto e usando o telhado como chapéu.

Se olharmos de novo, perceberemos que não há nada de verdadeiramente errado com nossa antiga casa da infância, como também não há nada de perigosamente fora do lugar em Gilmore Girls, antes e agora.

Fomos apenas nós que mudamos e precisamos de entretenimentos que queiram nos acompanhar nessa evolução dos tempos e visões de mundo, ou ficarão para trás junto com calças cargo e cds da Alanis Morissette.

Voltar pra Star Hollows nesse ano foi de muitas maneiras como estar de volta na casa dos seus pais, após um longo período fora. Bom para matar as saudades, mas preferível apenas uma vez por ano, no Natal.

Textos de Apoio:

As palavras finais de Gilmore Girls transformam tudo que acreditamos sobre Rory e Stars Hollow

Rory Gilmore e as garotas que acreditaram que eram realmente especiais

A prima pobre de Rory Gilmore

Why Rory’s Plot In ‘Gilmore Girls: A Year In The Life’ Is An Insult To Her, And All Millennials

On the Heightened Sense of Privilege in Gilmore Girls: A Year in the Life

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