Jacaré
Por vezes, quando se está calmamente boiando, desprotegido e tranquilo, é possível avisar repentinamente uma agitação do mar no horizonte. É barulhenta, rápida e parece invencível.
Para fugir da onda que é muito grande, vem vindo e vai cobrir você, meu avô ensina três grandes métodos, à sua escolha:
1-Caso tenha avistado a formação com antecedência, talvez dê tempo de correr até a praia e assistir confortavelmente, da areia, como outros nadadores lidam com o embaraço.
Requer pernas ágeis e visão aguçada.
2-Caso seja corajoso, convém pegar o famoso jacaré. O ato de abrir os braços e deixar a forte correnteza carregar você desde a parte funda, onde não dá pé, até a beira, onde a espuma quebra. É preciso estar alerta, pois você pode acabar se divertindo no caminho.
Requer habilidades intermediárias de natação e uma certa propensão ao nudismo, pois roupas de banho poderão ser perdidas no caminho.
3-Caso seja incapaz até de nadar cachorrinho, esta onda seja maior do que as outras e seja tarde demais para correr, existe uma alternativa menos honrosa que as anteriores, mas ainda assim eficaz. Prenda a respiração e mergulhe fundo até colocar os pés na areia. Espere. Se fizer certo, deverá sentir grande perturbação na água ao seu redor, mas nenhum contratempo mais sério. Para quem está dentro, parece que não vai acabar nunca, mas meu avô afirma que do lado de fora elas não duram tanto assim, as ondas grandes. Começam assustadoras e terminam em espuma, como todas as outras.
Requer a sabedoria de abaixar a cabeça, imóvel e concentrado, e esperar. A onda grande vai passar por cima de você. Se você firmou os pés como eu te ensinei, ela não te arrasta, nem te engole. Ela passa. Você fica.