Manual de Botânica

Gostar de alguém é que nem plantar.

Depois da semente, da mistura de barro, adubo e água sem luva nas mãos, depois da terra sujando embaixo das unhas, lavar as mãos, a terra continuar lá. Depois do sol cozinhar a testa e fazer o suor escorrer pra dentro da blusa, coçar a testa com a mão suja e desenhar assim, sem querer, uma listra laranja de argila na cara, depois de guardar os utensílios todos e voltar pra vida normal. Depois de tudo que poderia ter sido feito, ter sido feito, depois de tudo, resta só esperar.

Aprenda a não afobar o plantio. Essas coisas levam tempo.

Enquanto isso, não aguarde sentado na sombra, ali na varanda, espiando longe o local do semeio. Semente vigiada não germina nunca.

Também não pode fingir despreocupação e depois correr aqui de volta pra ver se já cresceu. Tem que esquecer de verdade. De preferência, ir dormir.

O amor, assim como o pé de árvore novo, gosta de surpreender os desavisados. Enquanto você dorme, distraído e pesado, um pé de fora da coberta pendendo na cama, roncando alto de madrugada, a muda quebra a casca e sobe pela terra até furar a superfície.

Aceitar que você não controla essa parte. Você faz o seu. Planta, confia no adubo e reza calado. Se a planta for pra vingar, ela nasce sozinha, sem alarde nem barulho. Quando você acordar qualquer dia desse e for regar as avencas na varanda, aquele brotinho verde vai ter aparecido do dia pra noite, lá longe, onde você nem lembrava.

Se a planta é boa, ela nasce até em solo seco, solo ardido, solo ácido. Ela desafia as condições, se adapta, procura o sol e brota pra fora, sem ter como evitar. É confiar no que ainda não existe e é só uma possibilidade, é saber esperar, é plantar com afinco, fazendo tudo certinho, mas também aceitar o futuro da planta, que quem sabe é ela.

Não vai adiantar regar de novo, nem jogar adubo em excesso.

Não esperar além da conta, quando a semente já morreu seca dentro do solo e você ainda está por ali, com a esperança de que depois de 2, 3 meses a planta ainda vai nascer a qualquer momento. Não vai. Aceitar que perdeu essa.

Saber reconhecer que dessa vez, mesmo com o esforço, o suor, a unha suja, sem luva nenhuma, o adubo certo, o regador, o sol na posição exata, não nasceu. Não vingou. Não cresceu.

Saber limpar o solo, recomeçar do zero, pegar novamente os utensílios, dessa vez ser mais sábio, usar chapéu pra não queimar do sol, não coçar a testa, mas permanecer sempre sem luvas.

Amor de verdade, daqueles que crescem com gosto e que viram jacarandá pra pendurar balanço, só nasce mesmo se a gente não tem medo de enfiar as unhas na terra, sem dó, e começar a cavar.

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