Maré

Faz um dia lindo. Quente, claro, céu limpo. Estamos todos no mar. Mas daqui eu olho para a beira da praia e vejo Clara, sentada na areia lendo um livro. Chapéu, óculos escuros, abrigada debaixo do guarda-sol. Aceno e ela acena de volta. Aceno de novo, mostrando que não é um aceno de ‘oi’ e sim um convite.

— Vem pro mar, Clara. A água tá uma delícia.

Eu grito e ela levanta o dedo dizendo que não. Clara não gosta do mar porque há muito tempo atrás adorava. Desde criança, vinha passar as férias na casa de praia com bóias, nadadeiras e risos de felicidade. Corria pra água, passava o dia inteiro pegando jacaré. Ninguém conseguia tirar aquela menina de lá.

O mar, provavelmente feliz com tanta atenção, tratava Clara muito bem. Só ondas calmas, areia lisa e segura onde pisar. Perfeito. Mas lembro que alguém falou pra ensinar Clara que o mar não é todo dia assim. Tem que ter cuidado, Clara. Tem que ficar atenta.

Numa tarde dessas inquietas, em que o melhor a fazer é ficar em casa, Clara, já crescida, teimou e foi tomar um mergulho. Colocou o maiô preto e nem olhou direito o horizonte antes de entrar e furar as ondas de cabeça. Tivesse olhado, muito dessa dor de cabeça teria sido evitada.

Nadou até o fundo e estava boiando na superfície tranquila e esverdeada, quando o vento fez uma curva mal feita e a água começou a mexer como quem borbulha dentro da panela, agitada. Veio vindo uma onda alta e barulhenta que tirou o sossego de Clara. Decidiu sair, mas quem disse o mar deixava?

Dali até chegar à areia, foi caldo atrás de caldo que ela tomou. Entrou areia no maiô, entrou água nos ouvidos e no pulmão, não conseguia colocar o pé na areia que a correnteza puxava Clara como quem puxa prum abraço. Chegou a ficar embaixo d’água até perder a respiração e tentar de todo jeito levantar a cabeça pro céu.

Quando pisou no seco, tossindo e cuspindo água, Clara olhou bem pro olho do mar e disse que nunca mais. Pegou a canga colorida e foi pra casa, só para ouvir de todo mundo que isso era normal. Que o mar era desse jeito mesmo, ela não sabia? Que era só um dia ruim. Que não era pra ter entrado. Que tem que olhar a maré com antecedência, pra ver se dá pra nadar. Que amanhã fica tudo bem de novo, ela acostuma, ela entra outra vez. Que ela não ache que isso é coisa pessoal não, que é assim com todo mundo, que é o mesmo mar, ela gosta tanto do mar.

Clara ficou calada e foi tomar banho pra tirar o sal dos cabelos. Todo mundo achou que uma hora ela esquecia e deixava essa história pra lá. Mas no outro dia, não teve quem fizesse Clara entrar no mar. Nem no outro. Nem no outro. Nem nenhum outro dia até hoje, e se passaram muitos verões inteiros entre as duas datas.

Hoje, quando eu olho no olho de Clara, que não tem tanta idade assim pra ter medo, eu vejo o receio de milhares de outros mares. Oceanos inteiros, sombrios e revoltos, onde ela não tem mais coragem de nadar. Aquela única tarde transformou Clara, que era uma nadadora invencível, em uma catadora de conchinha, uma moça que só molha os pés no rasinho e olha a praia da areia, sem coragem de ir adiante.

Como eu amo Clara e sinto falta da sua alegria ao nosso lado espalhando água, conto histórias para ver se a sua lembrança ruim vai embora. Eu falo do seu tio Murilo, que já furou o pé num ouriço, mas mesmo assim continua adorando nadar borboleta. Ou de Suzana, namorada do seu irmão, que perdeu a parte de cima do biquíni num dia desses de ondas violentas, mas nem por isso parou de mergulhar.

Mas Clara só sorri de um jeito meio triste, dizendo que a situação dela foi diferente dessas aí. Eu entendo, mas não desisto de perguntar todo dia se Clara não vai entrar no mar. Nunca pergunto se nunca mais, assim, definitivo. E ela nunca responde também. Pergunto do hoje, do agora, que é o que tá mais perto, que é o que importa.

— Agora não.

— E daqui a pouco?

— Daqui a pouco pode ser.

Mesmo que ela termine recolhendo as coisas e indo pra casa mais cedo, eu percebo que Clara traz o maiô preto embaixo da roupa e olha pro mar cheia de saudade naqueles olhos desconfiados.

Sei que qualquer dia desses, quando estiver quente e o céu limpo, um dia lindo assim, e a água estiver calma, Clara vai entrar na espuma despercebida e mergulhar de cabeça. Nadar até o fundo, se deixar boiar, sentir as ondas no corpo levando ela daquele jeito que a gente nem sente. Queria dizer pra ela que é normal a gente levar um caldo de vez em quando. Mas a gente se acostuma com a areia, com o sal, com o fôlego e com as ondas barulhentas que chegam de surpresa. A gente fura o pé no ouriço e nem por isso deixa de nadar, Clara. Mas acho que ela vai descobrir sozinha já, já.

— Clara, deixa de ser besta, vem pro mar! A água tá uma delícia.

Clara faz que não com a cabeça, lá da areia, cata outra conchinha e pensa em segredo dentro do maiô preto que daqui a pouco, daqui a pouco pode ser.

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