Do what you love ou love what you do?

Gabriela Neves
Jul 27, 2017 · 2 min read

“Do what you love”. Vivi por anos amando essa frase. Afinal, faço parte dessa geração Millenium, que está sempre em busca de mudar a relação com o trabalho, fazendo o que gosta, invertendo e subvertendo papeis e a procura de relações e demandas com um propósito.

Fazer o que ama parece não somente uma escolha inteligente, como também um modo de ressignificar as imposições trazidas pelo sistema capitalista. É a fuga da linha da produção e do trabalho sistêmico. Em geral, através da criatividade, flexibilidade e ambientes descontraídos. O modus operandi das startups, das agências e micro empresas descoladas compra essa ideia. E a cada vaga de emprego que é anunciada com piscina de bolinhas e happy hour as sextas-feiras, essa filosofia é retroalimentada.

Agora, você já parou pra pensar que o discurso de fazer o que ama está, quase sempre, atrelado a possibilidade de jogar tudo pro alto ?

Ou ainda: que nenhum emprego operacional / braçal se enquadra dentro dos requisitos para ser cool?

E mais, que escolher emprego e rotina é um luxo que apenas uma minoria têm?

Pois é. Muita gente não para pra refletir. Mas ao fazer essa pausa, nos deparamos com um discurso vigente que se ampara num viés quase opressor: Ou você faz o que ama, ou está sempre atrás. E não só isso. É uma fala que ganha respaldo no entrelaçamento das nuances do profissional e pessoal. Profissional e pessoal juntos = mais tempo no trabalho. Complexo isso, né?

Vivendo no meio da Indústria Criativa e tendo tido o privilégio de escolher o que fazer num curso superior (e nos trabalhos subsequentes) certamente foi muito difícil ampliar os horizontes pra esse lema. Mas hoje consigo (ou prefiro) encarar de uma forma diferente.

Talvez o DO WHAT YOU LOVE seja na verdade LOVE WHAT YOU DO.

E ainda que o Do what you love corrobore para um discurso dúbio e controverso, talvez a desconstrução esteja na forma de lidar com as decisões diárias e com o quanto nos enxergamos e nos colocamos no que nos propomos a fazer.

E embora a escolha do que fazer como trabalho não seja sempre possível, (e para grande parte da população não é) a escolha de como fazer é inerente a cada um. E não falo da ditadura da felicidade comercial de margarina, mas sim da energia designada naquilo que se faz e na escolha de buscar ser melhor e fazer da melhor forma as escolhas do dia a dia.

Hoje, depois de conseguir entender a problematização, não compraria mais um moleskine com Do What you love na capa. Mas ainda observo com olhos brilhando quem se coloca naquilo que faz.

Gabriela Neves

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Comunicóloga por natureza. Entre a mente e o coração. Ideias e instantes capturados por aí.

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