La histeria argentina

Se você for googlear, verá que histeria é um distúrbio mental muito antigo, geralmente caracterizado por emotividade excessiva e alguns desagradáveis sintomas físicos. Na Argentina é outra coisa. Usada quase tão frequentemente quanto boludo, a palavra histérico(a) é um adjetivo muito comum aqui e se você passar mais que algumas semanas convivendo com argentinos, com certeza os ouvirá se referindo a um paquera ou peguete dessa maneira. Só que ao contrário de boludo, ser histérico não é nada legal.

E o que diabos é isso? A histeria é o comportamento de quem, ao se interessar por alguém, demonstra desinteresse ou desdém. Contraditório, né? É a velha história de se fazer de difícil, “porque a gente gosta mais daquilo que não pode ter“. Ela não é uma característica exclusiva dos hermanos — só que no Brasil a gente chama de (pardon my french) c* doce. A diferença é que esse é o modus operandi oficial dos relacionamentos (sejam eles fugazes ou duradouros) por aqui. Todos (ou quase todos) agem assim, até porque esperam que a outra pessoa vá agir igual.

Permitam-me ilustrar. Histérico é o cara que conversa com você em um bar com a cara grudada na sua, mas não te beija (nunca! E vai embora sem nada ter acontecido, nem trocar telefones). É o cara com quem você troca olhares todos os dias no ônibus, mas que nunca te dá oi. É a menina que ignora suas investidas na balada, mas na hora em que você desiste e vira para ir embora, segura seu braço e te pergunta “a donde vas?“. É a garota que lê suas mensagens e responde 5 horas depois, só para não parecer muito interessada. É o cara que espera um mês para te chamar para sair outra vez, mesmo depois de vocês terem se divertido muito juntos. É o tipo que tá doido para te ver de novo, mas tem tanto medo de que você queira estar de pareja que vai — apesar de seguir te dando bola — fugir de encontros como o diabo foge da cruz.

Nada disso é novidade para ninguém, né? Acho que nem no Brasil, nem em nenhuma outra parte do mundo. As pessoas realmente têm uma ideia de que se fazer de difícil funciona melhor na hora de conquistar alguém. Talvez seja verdade. Eu sou uma dessas que sofre de uma necessidade patológica de ter aquilo que não me é permitido. Ou seja, disse que não quer/não pode ou não devo, eu quero.

Mas imagine aí o stress que vem de flertes ou relações em que o não muitas vezes quer dizer sim e o talvez não é incerteza, mas um teste sádico para te provocar. Aqui a histeria extrapolou com qualquer limite. Não existe tempo bom para nada. Tudo é difícil, trabalhoso e cansativo demais. E tente nadar contra a maré para ver: puta, fácil, objeto.

E pior. É tão frequente dizer “não” quando, de fato, se quer dizer “sim” que as pessoas perderam a noção de que “não” significa “não”. Por isso é também frequente ser assediada nos boliches da vida (BTW, boliche aqui significa balada) por caras que simplesmente não entenderam as primeiras 45 vezes em que você se negou a beijá-los.

Para ser bem sincera, acho que o pior dessa histeria toda é o tempo e a energia que se perde com ela. Nem todo encontro precisa ser rodeado de stress — esteja você buscando ou não algo sério com alguém. É tão mais fácil e divertido poder dizer o que se pensa ou ser sincero no que se quer, sem ter que se preocupar em parecer carente ou disponível demais. Gente — sério! — não querer parecer disponível demais é o cúmulo da neurose.

Eu até entendo disfarçar o que sente quando não se tem certeza do que o outro quer — isso nada mais é que instinto de sobrevivência ou medo de se machucar. Mas trocar o sim pelo não só para bancar o difícil é inútil e bastante imbecil.

Hermanos, ustedes son genios, lindos, muy amables y re buena onda, así que no hace falta tanta histeria, viste!

Es decir, deu onda, dê beijos!

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Originally published at alugueltemporariobsas.wordpress.com on June 25, 2016.