Não tira o batom vermelho — e nem o shortinho

Hoje rolou uma palestra da JoutJout na minha universidade.

Eu almocei na pressa para não perder a hora da aula, já que teria que sair mais cedo se quisesse pegar o ingresso da palestra e, pela primeira vez no semestre, saí de casa pontualmente às 13h20. Outra coisa rara que aconteceu essa tarde foi que eu saí de casa me sentindo bonita. E isso, sendo eu mulher, é inaceitável.

Fui lembrada disso assim que virei a primeira esquina, com um bostinha me assediando. Em poucos segundos aquele homem completamente desconhecido conseguiu:

1- acabar com a minha confiança e auto-estima

2- me obrigar a voltar para casa para trocar de roupa, afinal de onde eu tirei aquela ideia idiota de sair de shorts em um dia em que eu voltaria para casa à noite e sozinha?

3- me fazer passar o dia com um calor dos infernos em uma calça comprida

4- me fazer perder o ônibus e, consequentemente, a aula

Pior do que me sentir violada e insegura, foi a sensação de falhar como feminista por “permitir” que isso acontecesse comigo. Eu me senti a pior pessoa do mundo durante toda a tarde.

“Mas você não xingou o cara?”

“Não acredito que você trocou de roupa por causa disso.”

Mas afinal, que merda de feminismo é esse que estamos fazendo que diz que eu devo me culpar por uma atitude escrota de um cara? Por não ter reagido da maneira “certa”? Eu não tenho que me sentir mal por ter me preocupado com a minha segurança. Foi ele que me violentou, caramba!

Nós, mulheres, nos encontramos nessa posição em uma frequência assustadora. Então eu queria usar essa experiência horrível para lembrar a você, irmã, que é muito legal se você for empoderadíssima e fizer o cara que te cantou na rua engolir cada palavra. Ou se você terminar com o namorado abusivo e nunca mais na sua vida sentir falta dele. Mas se você não fizer, tudo bem.

Você não é obrigada a ser forte o tempo todo.

Tem dias que a gente consegue mudar o mundo, tem dias que não. E isso não te faz menos feminista, menos mulher ou menos incrível. A nossa luta não é sobre ser a pessoa mais corajosa do mundo, é sobre ser um pouquinho melhor sempre que for possível e, quando não for, se amar mesmo assim. Porque se amar é a maior transgressão que uma mulher pode cometer na nossa sociedade.

E a palestra da JoutJout nessa história toda? Essa eu nem preciso dizer que foi maravilhosa ❤

Não tira o batom vermelho — e nem o shortinho.

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