sobre meu pai e miles davis

E era assim. Ele deitava no sofá e fingia dormir.
Aí nós duas começávamos a dar voltas ao redor da mesa de centro da sala, fingindo de distraídas, até a hora que ele “acordava” e dizia, com voz grave:
“Vooocês despertaram o mooooonstrooooo”
Era um susto, mas um susto diferente. Susto esperado.
Prendia uma de um lado e fazia cócegas na outra menor ainda, depois trocava. Então ele fazia uma concha com as mãos, de um jeito que deixava a nossa vista e a dele bem escuras. E falava:
“Aaaaa escuridãããão da noiteeee”.
E a gente ria, e ria, e ria. Sei lá a razão, mas a gente ria.
Com o tempo ele parou de andar de bicicleta aos domingos, não sei a razão, acho que nunca me lembrei de perguntar.
Tanto eu esqueço de dizer, nessa minha coisa de ser ruim com a fala e de deixar tudo pra escrita…
Muita coisa mudou, mas tem outras que não — e algumas eu tenho certeza que nunca vão mudar, como o jeito que o meu pai sempre teve de usar o silêncio.
Ele nunca foi de gastar palavras duras: nos momentos em que qualquer pai gritaria, perderia o sério, ele, meu pai, calava. E era só isso que a gente precisava pra voltar aos eixos.
(e pensando agora, talvez por isso eu goste tanto de Miles Davis, porque eu sei desde cedo que o silêncio é uma nota)
Em silêncio, ele me mostrou o valor do trabalho quando eu achava que era tudo muito fácil.
Em silêncio, ele me botou pra levar comida em um casebre quando ameacei olhar só pra cima.
E usando o poder do vezenquando, ensinou o valor de coisinha besta, tipo acordar um pouco mais cedo em dia de colégio pra tomar um pingado e um pão na chapa na padaria com o pai.
Ah, pai!

Feliz Aniversário.

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