The Uses of Sorrow (Mary Oliver)

(In my sleep I dreamed this poem)

Someone I loved once gave me
a box full of darkness.

It took me years to understand 
that this, too, was a gift.

Se a gente pudesse escolher, com certeza não passaria por fases difíceis. E o fator comum de fases difíceis é, sempre, um leve ou não tão leve olá da realidade.

O caminho dos olhos bem abertos exige coragem e disposição pra enxergar o horror, a nudez do que ignoramos em nós ou outro não corrigiu em si, o torto (ou círculo) dos nossos próprios passos. A aceitação disso, segundo os budistas, promete levar a algo maior, que é conhecer a nossa real essência e descansar numa sonhada aceitação plena, tranquilidade e confiança em si inabalável. E não há a certeza de alcance dessa plenitude, há a certeza de que ela fica mais perto a cada passo dado.

Venho percebendo o poder de aproximação que esses momentos trazem com companheiros de viagem ao optar por este caminho — o dos olhos bem abertos. São nesses momentos que voltamos a nos aproximar dos que sempre estiveram ao nosso lado, daqueles que confiamos, eté nos unimos a quem já enfrentou algo parecido. E as histórias provam que nem tudo é o caos que parece e que acima de tudo, não estamos sozinhos, não precisamos ficar sozinhos, não devemos ficar sozinhos.

Há alguns dias e buscando respostas para ciclos que se repetem — que parte eu não aprendi? — acordo às voltas com esse pequeno poema da Mary Oliver. E tenho observado que são poucas as vidas sem dor ou sem grandes decepções, e que existe um fator em comum entre as que encontram o caminho de leveza em meio aos acontecimentos: a coragem pra sentir tristeza.

A tristeza e sua amiga melancolia são verdadeiros demônios do mundo moderno, temidas como uma catástrofe. Tristeza, serpente que poucos tem coragem de olhar de frente.

E há de se entender a fuga de tantos. Ela hipnotiza. Ela condena a um quarto escuro. Ela impede movimentos. Se fica por muito tempo, se transforma em mágoa, e cada centímetro de mágoa pesa cerca de uma tonelada. É preciso cuidado.

Os subterfúgios para evitar a serpente são diversos: entorpecer a razão, procurar a ressignificação externa, e dos mais comuns é alimentar outras serpentes, como a raiva e a egolatria, e deixá-las fazer o barulho necessário pra calar qualquer vestígio. Para alguns, funciona. Outros já aprenderam que não se segura a longo prazo.

Todos sofrem decepções, quebra de planos, imprevistos horrendos. Nem todos sentem tristeza pelo mal que foram causados ou que causam. Os caminhos da alma são cheios de atalhos, mas acredito cada vez mais que enfrentar a tristeza (com o respeito que ela e o mar merecem) é o que nos leva além.

Ela costuma nos encontrar com todo seu peso em momentos chave — e com o tempo, nos encontra cada vez mais diferente, mais sereno na medida do possível, e assim se acostuma a ficar menos. Vai nos deixando aos poucos, não sem antes nos questionar, não sem antes nos deixar de castigo. Ela não sustenta, mas retém.

Nossa amiga tristeza também não avisa ao ir embora. Ela vai sem dizer quando, deixa em cima da mesa um presente — a mim vem oferecido confiança e a certeza de que se a hospedei sem medo, ela perde cada dia mais o interesse em mim. E talvez um dia, ao me fazer a derradeira visita, ela me torne invencível.

Bonjour, tristesse. Se demore.

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