Confortável distância

O chão seco desmente o rádio, mas vai saber. Ainda nem chuvisca e já estamos precavidos. Não faço o tipo gentil de segurá-lo porque não sei quantos eu já perdi. Você usa o pretexto pra enganchar no meu braço. Dou a entender que é só um momentinho boboca debaixo do seu guarda-chuva roxo escandaloso. Mil e duzentos motivos pra gente se encostar e não conseguimos pensar em nada que não seja a falta de espaço. Na estação em que estamos, o frio, a insegurança e um ônibus demorado a chegar, se é que você vai mesmo cumprir a promessa de me obrigar a subir. Se depender de mim, talvez a gente se molhe como nunca.

Só que essa sua feição meia-boca me faz sentir idiota. Você me assusta quando fica desse jeito, que nem um milkshake de chocolate resolve. Perdendo minha frieza, poderia entrar a noite deslizando dedos na sua franja e nada mais, sem arrependimentos. Agora entende quando digo que fica inviável amanhecermos juntos, mas também não precisa me apressar? Sua teimosia em planejar tudo é só ganho de tempo pra deixar passar as coisas que dão medo de viver. E aí, como será então? Na sua imaginação ou na minha?

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Gabriel’s story.

Responses
The author has chosen not to show responses on this story. You can still respond by clicking the response bubble.