Esconderijo

Nem vem terminar mais um dos meus inícios de briga mordendo fatias dos meus lábios, ou com um abraço constrangedor de tão longo. E não adianta segurar firme meu pulso, dizendo que eu tenho uma coisa que o faz deixar tudo pra depois e sempre chegar pra me ver, num boteco, na padoca ou na portaria, sempre com fome. Nunca mais volta atrás na rua e fala a maior besteira que já não pude negar, que tudo que eu peço é o que ninguém tem a oferecer. Não me penetra olhando bem no fundo, com os olhos demonstrando mais do que cinco sentidos difusos e inéditos, tudo misturado. Não repete que sou bonita, que meus pés são de cinema, que minhas bochechinhas entregam meu sorriso guardado para manhãs seguintes extraordinárias que jamais acontecem. E pode acreditar, fotos sonolentas de queixos acariciando têmporas também mentem. Foi mal ter dançado sobre você estirado no tapete, gargalhando feito uma criança boba só de saia e blusa de academia. Se eu fosse uma pessoa diferente teria experimentado mais madrugadas como essas, de pernas nuas e pro alto, apoiadas em paredes que nos escutam falar por horas. Chega de Weezer, de LSD, de manjericão, de pernas mornas entrelaçadas e jogadas num bom sofá.

Porque, sabe, eu tenho outros carinhas aí pra encontrar e me sentir invisível. Melhores que você, pois não sabem acomodar Tim Burton e Oscar Wilde numa mesma frase, e que não decoram falas do doutor House para me dar sermãozinho existencial. Rapazes estranhos que acham minha tatuagem “show” e não tem ideia do que meus antebraços querem gritar pra todo mundo ouvir. Caras que me dão branco se eu precisar de um nome pro meu vício de sentir saudade. Estou apalavrada com criaturas que ficam sabendo de eclipses nos jornais do outro dia e que me penduram num pedestal de açougue. Pessoas que vão se esforçar pra falar mais alto do que meus sonhos e solicitar garçons sem delicadeza. Eles não cheiram meu hálito de maçã cuidadosamente antes de enfiar a língua azeda e áspera na minha boca, facilitando a tarefa de me imaginar nua em qualquer cômodo sem personalidade. Babacas legais esperam testar algum talento meu para deixar-me enganar, contando com minha preguiça de êxtase. Estou totalmente à disposição dos destinos dos tagarelas dessas ruas sem suspenses emocionais ou borboletas no estômago.

Agora sobre você, de novo. Olha só, prometo cultivar lembranças carinhosamente, até o dia dezessete. Às vezes, só às vezes, vou imaginar se você ainda pensa em mim e ri do meu mindinho esfolado da sandália, enquanto anda pelos becos de jazz, enquanto rabisca desenhos geométricos, enquanto trabalha quieto, anda pela calçada, liga pra alguém, pede uma coca gelada no balcão. Dessa vez não vou dissimular, era bom. Pra você também, que eu sei. Não sabia que podia me sentir tão calma e acolhida por alguém tão calado, tão praticante de cigarros introspectivos na janela, dando mais atenção pro deserto de asfalto molhado do sereno. Aliás, com ou sem trânsito, no Rock In Rio ou sozinha num quarto, sem emprego ou chegando às oito, com minha mãe ou não respondendo mensagens, tudo dá na mesma solidão. Exceto quando trombamos com um ser raro e nos deixamos levar por umas semanas ocasionais, desafiando testamentos feministas e tudo que aprendi e sigo à risca, sem riscos. Desculpa, mas não dá pra esquecer outra vez que o esconderijo mais seguro que existe é a multidão.

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