Mais estranhos que a ficção

Pela noite, de bar em bar, meio que fugindo do Woody Allen. Não sabemos dar nome a isso, e talvez seja essa a grande graça da coisa. É como a devolução da poesia e do mistério perdidos nas brumas da juventude, acontecendo assim tão natural, na placa de “Pare” de uma esquina mandando ir com tudo. Ainda que com mais mecanismos de defesa que o Irã, dá pra ver que há uma mescla incômoda de conforto e segurança, que nos faz sentir protegidos, corajosos, amparados escuridão adentro. Como dois retardados, rindo do perigo, embriagados de clichês até a última ficha de Pale Ale. É difícil imaginar o cotidiano propiciando algo melhor que identificação e pertencimento. Sem isso, qualquer dia normal parece um erro, qualquer luar minguante parece um desperdício. Não se fazem necessários chocolates ou abraços, mas um toque leve no braço, calor sem pretensão, mal também não pode fazer. Assim como dezessete cigarros, um após o outro, são como vitaminas, nos mantendo acordados do pesadelo que é nem sempre conseguir viver do único jeito que a gente sabe. Entende? Você não precisa conhecer desde criança, pra ser amigo de infância. Você não precisa descartar roupas no assoalho pra gozar junto. Como se olhos que dizem sim, fundissem almas muito mais do que bocas que dizem não, ainda que expirando exatamente a mesma nicotina de hortelã. E se? Melhor não. Nem sempre fica fácil lidar com o querer do corpo, a alma compreendendo, o peito suportando e a realidade nos observando bem de longe, pelo olho mágico. Num mundo de conexões rápidas e compartilhamentos de status quo, no fundo nossa busca é por um outro alienígena para contatos de primeiro grau. Se soar inadequado, não vamos nos esquecer: há pessoas seguindo seus corações sujos por toda parte. Por que nós, donos de bons corações vagabundos, não podemos seguir os nossos? E você tem razão quando diz que não somos uma história. Mas a gente já tem uma, mais estranha do que qualquer ficção. Como dois anti-herois tentando se livrar do auto-engano, salvos e sãos de que a melhor receita para existir de verdade é saber aguentar as consequências.

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