Como ter Insights no Processo Criativo

in + sight = visão de dentro.

Para Carl Jung, o processo criativo é resultado da atuação de forças que geram conexões entre dados conscientes e inconscientes, transitando do “eu” para a "rede neural coletiva". Para ele, isso é possível graças à função simbólica da psique (função transcendente).

Apesar de a pesquisa sobre criatividade ainda ter muito a evoluir, o entendimento do processo criativo hoje tornou-se laico e não é mais considerado um mistério como foi para os Gregos e Romanos (800 a.C — 600 d.C), a ponto de se atribuir a fonte da criatividade a um daemon ou gênio. Desde o século passado, a criatividade como processo tem sido amplamente discutida e estruturada em fases e em diferentes métodos e técnicas.

Um dos fenômenos mais interessantes do processo criativo é o insight. Talvez a concepção da criatividade como uma mensagem dos deuses tenha a ver justamente com o processo da intuição e do insight, em que as ideias podem vir aparentemente “do nada". Uma das definições de insight dadas pelos dicionários é apreender a natureza verdadeira de algo especialmente através do pensamento intuitivo. Teóricos mais antigos do processo criativo costumavam identificar o momento do insight em uma fase chamada incubação, quando se deixa o inconsciente trabalhar para conectar ideias.

Podemos dizer que essas conexões têm relação com "propriedades emergentes" do processo, fenômeno discutido por pesquisadores como Nigel Cross em seu livro sobre Design Thinking. É como se dentro do universo do problema surgissem, de repente, novas imagens a partir de uma certa conexão entre elementos. Cross utiliza o exemplo de quando dois triângulos equiláteros se sobrepõem para formar um hexagrama. Além de uma estrela de seis pontas, identificamos seis novos triângulos e um hexágono.

Dois triângulos sobrepostos fazem novas formas emergirem.

Travou? Dê um tempo, tome um banho ou sonhe um pouco.

Muitas vezes, o insight surge quando nos exaurimos durante o processo, depois de fases de excitação ou angústia, e resolvemos descansar. Diversos estudos indicam que quando deixamos nosso cérebro fazer livres associações sem censura, temos os melhores insights. Quando estamos distraídos, cansados ou relaxados (deixando nosso cérebro livre para atuar com informações mais amplas que vão além do problema), aumentam as chances de ter uma boa ideia.

"Insights envolvem pensar fora da caixa. Nesse momento, estar suscetível à distração pode ser benéfico. Quando estamos menos focados, podemos considerar uma gama mais ampla de informações que nos dá acesso a mais alternativas e diversidade de interpretações, fomentando assim a inovação e o insight". CINDI MAY, psicóloga pesquisadora da Universidade de Charleston

Não por acaso, muitos afirmam que as boas ideias vêm na hora do banho. Em uma survey com 4.000 pessoas de diversos países, 72% afirmaram ter ideias no chuveiro e 14% delas disseram tomar banho somente para ter ideias. (Isso é curioso: a survey foi conduzida pelo psicólogo pesquisador em criatividade S. B Kaufman, PhD e encomendada por uma empresa de tecnologias para banho para saber mais sobre como lançar um novo produto.)

A pesquisa sobre criatividade de Mihalyi Csikszentmihalyi, psicólogo simpático de nome complicado que estuda o Flow, também reforça que intercalar momentos de relaxamento e distração durante o processo criativo é a melhor forma de ter ideias. Caminhar, dirigir, nadar, tomar banho… quando deixamos o pensamento mais livre em uma atividade meditativa ou semiautomática a mente fica mais propensa a fazer conexões abaixo do limiar da consciência que não acontecem normalmente.

Uma história legal sobre insights no banho é a de Arquimedes. O arquiteto Vitrúvio conta que o rei de Siracusa procurou Arquimedes para descobrir se um ourives o havia enganado. O rei entregara uma quantidade de ouro para o ourives forjar uma coroa. Depois que recebeu a coroa, vieram contar que o ourives havia roubado uma parte do ouro e colocado prata no lugar. O rei procurou Arquimedes para investigar o caso e o cientista trabalhou incansavelmente no problema em seu laboratório. Mas, ironicamente, a solução só apareceu quando decidiu sair para tomar um banho. Quando entrou na banheira cheia, ele percebeu que uma quantidade de água foi derramada para fora. *Aha! moment:* Para resolver o problema, então, era só observar o deslocamento da água ao colocar a coroa do rei em um recipiente com água, tornando possível estudar o volume dos metais em relação a sua densidade. Contam que Arquimedes ficou tão excitado com a descoberta que saiu do banho correndo pelado pelas ruas exclamando "Eureka!". Certamente ele só fez essa descoberta porque estava com a cabeça fervilhando no problema, mas a resposta só teve espaço para aparecer no momento em que estava esgotado e se afastou para relaxar um pouco.

A história de Eureka, por Kevin Kallaugher (em inglês)

Se estivermos atentos, até dormindo podemos ter insights. Foi o que aconteceu na metade do século XIX com o químico alemão August Kekulé. Ele contou estar em sua mesa trabalhando, mas o trabalho não rendia, não conseguia entender a estrutura possível para o benzeno embora soubesse das ligações moleculares. Decidiu descansar um pouco sentado à frente da lareira e acabou dormindo. Na dimensão do sonho, moléculas do Benzeno tinham vida própria e moviam-se como cobras, até que uma delas enrolou-se como uma cobra que mordia o próprio rabo. (Por acaso ou não, essa imagem da cobra é antiga e conhecida como ouroboros.) Quando acordou, Kekulé se deu conta que as cadeias moleculares do benzeno e de outros elementos poderiam existir em formato circular, e não apenas em linhas retas como era entendido até então.

Selo alemão em homenagem a Kekulé e ao Benzeno.
“Aprendamos a sonhar, senhores, pois então talvez nos apercebamos da verdade”. disse AUGUST KEKULÉ, que manjou dos paranauê dos sonhos

E você, costuma ter insights no banho ou descobrir o sentido das coisas em sonhos?


Lembre-se de estar envolvido com o processo (e ir até o final).

O insight é um fenômeno complexo e aparentemente automático da consciência, mas podemos nos preparar para ele: estado de presença e metacognição são a chave.

É importante falar de três pontos, reforçando a tese dos 99% transpiração:

a) O insight aparece quando estamos imersos no processo criativo.

Ou seja, quando colocamos energia psíquica no problema e essa dedicação se estende para o inconsciente. Charles Watson, especialista em processo criativo, chama isso de "matriz energizada": quando você está imerso em resolver um problema, o mundo inteiro se configura para que você faça conexões para encontrar a resposta.

b) As ideias não vêm do nada; precisamos de dados para serem conectados.

Pelo menos até onde se sabe em relação a maioria das pessoas, não adianta querermos resolver um problema sem os conhecimentos básicos para isso. Por mais criativa que eu seja, não vou conseguir produzir um teorema matemático porque simplesmente me falta o conhecimento mínimo. Por isso um repertório variado de conhecimentos e experiências é tão importante.

c) Só a boa ideia não é suficiente.

Não basta ter o insight e ter grandes ideias, também é necessário muito trabalho e disciplina para aplicá-las no mundo real. Ideias, como dizem, todo mundo tem e valem muito pouco. O grande desafio é colocá-las em prática. Hoje contamos com diversas ferramentas disponíveis para estruturar e apoiar o processo de desenvolver ideias e tirá-las do papel. Além de ferramentas clássicas do processo criativo, dependendo do nosso objetivo, podemos utilizar métodos como design thinking, games, modelagem de negócios, scrum e até mesmo serviços como coaching ou consultoria.


Liberte a mente para criar com o corpo inteiro.

Enso: Liberte a mente para criar com o corpo inteiro. A natureza da iluminação é um círculo vazio. (arte de Shibayama Zenkei)

Quando tinha que ler artigos e escrever para o mestrado, chegava um momento em que, além de arriscar uns ásanas bem humildes de ioga pra fluir melhor, eu começava a ler coisas aleatórias sem nenhuma relação direta com o assunto da pesquisa para espairecer as ideias. Isso foi muitas vezes inspirador.

Lembro de ler bastante literatura oriental e koans. Os koans são enunciados paradoxais para dissolver o pensamento lógico, ir além da mente e despertar a intuição usados no zen para meditação. Tudo bem que o propósito mais nobre do uso é atingir a iluminação, mas humildemente os koans podem ser bons gatilhos para ativar a intuição e o insight. Se não servirem pra isso, já vão servir.

Batendo duas mãos uma na outra temos um som. Qual é o som de uma única mão?

Qual é o som do silêncio?

Qual era seu rosto original (aquele que você possuía antes de nascer)?

Suba uma escada de 99 degraus até o último degrau. Agora, suba mais um degrau.

Um Mestre oferece um melão a um discípulo, e pergunta: — Que te parece o melão? Tem bom gosto?

— Sim, muito bom gosto! — responde o discípulo.

O Mestre, então, faz outra pergunta: — O que tem bom gosto: o melão ou a língua?

(O meu preferido:)

Porque está tão claro,
Leva mais tempo para chegar à conclusão.

Se você sabe que a luz da vela é fogo,
A refeição já está pronta há muito tempo.


Mênção honrosa: Insights nos dão pistas para a vida.

Apesar de o foco aqui ser o processo criativo formal, o insight como entendimento intuitivo repentino acontece durante toda a nossa vida: temos insights sobre questões internas e subjetivas que podem redirecionar as nossas decisões e o nosso destino.