Tinder, um aplicativo de relacionamentos afetado pela política.

O que gostam de fazer, onde vivem, interesses e características pessoais são alguns dos itens que as pessoas que usam o Tinder costumam colocar em suas biografias. O aplicativo, lançado em 2012, tem como objetivo facilitar o contato entre pessoas ―geralmente desconhecidas― que podem acabar sendo de seu interesse, tanto amoroso quanto amigável. Entretanto, o aplicativo recentemente ganhou mais um uso: discutir opiniões políticas.

O Brasil é o terceiro país com maior número de usuários no mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos e o Reino Unido. Embora o trono de primeiro lugar pertença aos EUA, algo vem preocupando os administradores do aplicativo em relação ao uso no país: segundo o diretor executivo do Tinder, Greg Blatt, o uso do app decaiu após a eleição de Donald Trump como presidente do país.

A repórter Georgia Wells, do Wall Street Journal, publicou em sua conta do Twitter que “o Tinder viu mudança na atividade na América do Norte após a vitória de Trump. ‘A pós-eleição foi estranha’ diz o diretor executivo do Tinder.”

Muitos usuários responderam a jornalista, fazendo comentários como “eu estava com medo de encontrar um simpatizante do Trump, sinceramente. Deletei o aplicativo” e “quando você está profundamente deprimido e se sente sem esperanças sobre o futuro, sua vida amorosa tende a sofrer”.

No entanto, não é só nos Estados Unidos que a política interfere no uso do aplicativo: são inúmeros os perfis brasileiros que expressam as opiniões políticas de seus usuários. Após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, as frases como “fora Temer”, “foi golpe” e “não foi golpe” são as mais comuns nas descrições. As pessoas desejam mostrar previamente o que pensam sobre assuntos políticos, podendo assim evitar fazer combinações com pessoas que possuem opiniões diferentes às suas.

Caroline Suzin, jovem de 17 anos e estudante de engenharia mecânica, nunca deu like em alguém que possuísse frases expondo opiniões políticas em suas biografias pois acredita que não é um tema decente para ser tratado no Tinder. “Política ia ser um dos últimos assuntos para puxar conversa. Política eu gosto de discutir pessoalmente, não por rede sociais, porque em redes sociais você pode parar, sair da conversa, ir pesquisar e responder uma coisa que você nem pensa. Às vezes você não tem nem noção do que está falando porque simplesmente segue a opinião de outra pessoa”, disse a universitária, alegando que quando se está conversando por um aplicativo de rede social os indivíduos podem demonstrar argumentos descobertos com uma rápida pesquisa na internet, o que não aconteceria em uma conversa pessoalmente. Caso ela desse match com alguém e depois de algum tempo surgisse o tópico e essa pessoa pensasse diferente politicamente, ela respeitaria, contanto que a pessoa fizesse o mesmo. “É uma forma de manifestar a sua opinião, o que você defende, mas acho desnecessário para um aplicativo de relacionamento”.

Vinícius Parisotto dos Santos, estudante de engenharia elétrica de 17 anos, acredita que política é um assunto que pode ser tratada no aplicativo, pois como o principal objetivo é conhecer novas pessoas, deve-se aceitar e descobrir também essa faceta política dos indivíduos. Acredita que as pessoas coloquem frases como “Fora Temer” para se classificar e encontrar semelhantes que compartilhem da mesma opinião, facilitando as curtidas. Entretanto, ele diz que essa atitude de exprimir a opinião política logo na biografia pode ser um pouco ruim, uma vez que pode acabar afastando pessoas interessantes, mas que discordam politicamente. Ele acha que as escolhas políticas não interferem a essência dos indivíduos, já que muitas pessoas são contrárias ao seu pensamento e ainda assim são agradáveis de se estar junto. Em sua opinião, é preciso ter uma conversa inicial antes de chegar no assunto política. “Tem que conhecer a pessoa, senão pode começar de um jeito errado. Agora, se você começar a conversar e depois falar [a opinião política], aí sim dá para manter a relação”.

Como funciona?

O app também é prático: para entrar é necessário fazer login com a conta do Facebook ou do WhatsApp, o que evita os longos cadastros necessários para entrar nos antigos sites de relacionamento, além de diminuir a utilização de perfis falsos. Por meio do Facebook, o aplicativo coleta dados dos usuários e mostram as relações em comum entre eles, como amigos e páginas curtidas. Os pretendentes que aparecem estão sempre a uma determinada distância, estabelecida por cada indivíduo. Para “dar match” com alguém, é preciso que as duas pessoas tenham curtido uma a outra.

Nas últimas atualizações, o potencial interativo do Tinder aumentou: é possível dar superlike em alguém, fazendo com que a outra pessoa saiba que você se interessou por ela; conectar sua conta do Instagram, para que suas fotos fiquem visíveis também no aplicativo de relacionamento; criar grupos com amigos para darem likes em outros grupos, permitindo assim uma interação maior entre os usuários; mostrar, por meio do Spotify, as músicas que você ouve; e até mesmo usar um boost, para aparecer com mais frequência no setor de procura dos outros usuários. Com o Tinder Plus, versão paga do app, ainda é possível trocar a localização para qualquer lugar do mundo, controlar quem vê o usuário (certas pessoas recomendadas ou apenas quem o usuário curtiu), “rebobinar” a última pessoa descurtida, esconder anúncios e omitir a idade e a distância do usuário.

Gabriel Salazar e Myla Rossetto.

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