Tradução audiovisual e anime: profissionais contra amadores

Não é segredo nenhum que atualmente a maior parte da tradução audiovisual no mundo do anime é realizada por voluntários. Sobre este trabalho podemos encontrar na Internet opiniões muito diversas, quer de partidários desta prática, quer de detratores. Entre os primeiros encontram-se as legiões de fãs, que no entanto também são os principais críticos a respeito da qualidade destas traduções. O segundo grupo, por sua vez, está formado por vozes procedentes da indústria audiovisual japonesa, devido à relação direta entre este tipo de tradução e a pirataria, e por tradutores profissionais.

Não disparem sobre o amador… ainda

Efetivamente, qualquer profissional sentirá uma facada no coração ao ver como grupos de jovens sem experiência se organizam para fazer o seu trabalho de forma gratuita e, ainda por cima, «mal». Ora bem, não é por questões de estilo que colocamos este «mal» entre aspas: a qualidade é sempre um fator dependente das expetativas e da finalidade do produto. Neste caso, não obstante, estamos perante produtos diferentes. Começaremos por falar sobre a tradução profissional de animes nos últimos 30 anos.

De como o Vegeta não sabia apreciar a música «pimba»

O anime chegou às nossas televisões nos anos 70 e consolidou-se durante os anos 80 e 90. Numa época em que era geralmente aceite que as crianças atirassem pedras com a fisga aos gatos e fumassem cigarros de chocolate, o anime chegou quase sem censura para divertir os miúdos depois da escola. Considerados apenas «desenhos animados», estes programas estavam destinados a todas as crianças, sem qualquer conhecimento da língua e cultura de origem do anime e, até bem entrados os anos 2000, sem meios para procurar informações sobre o tema. A tradução exigia, portanto, realizar uma profunda adaptação linguístico-cultural, dentro das limitações impostas pelo formato.
O resultado, na maioria dos casos, é digno de reconhecimento. Um dos melhores exemplos de adaptação é Dragon Ball. Duas décadas mais tarde, os internautas lembram muitas das cenas correspondentes a decisões tomadas pelas equipas de tradução e dobragem. Um grande exemplo é o episódio da luta entre o Vegeta e o Bubú, em que monstro cor de chiclete dança ao som da cantora portuguesa Romana [min. 07:08]:

Curiosamente, na versão japonesa esta personagem não canta nenhuma canção específica [min. 12:00].

Para além da própria dobragem, provavelmente o elemento mais destacado seja a abertura e o encerramento dos episódios. Para quem não conheça o mundo do anime, é preciso salientar que as canções com que começam e terminam são compostas especialmente para o programa. Isto implica que os tradutores devem saber adaptar as letras e os dobradores, para além de atores, devem ser bons cantores. O objetivo é ambicioso: conseguir que o público se apaixone pelas canções e as cante a qualquer momento. Considerando a grande divulgação que alcançaram na internet, parece que o objetivo foi conseguido (embora os fãs dos distintos países não consigam chegar a um acordo sobre qual delas é melhor… e compreendemos que não é fácil).

Camões, Shin-Chan e as sandes de Nutella.

Em algumas ocasiões, o sucesso da tradução é tão grande que se produz uma «apropriação cultural» da personagem. Imaginamos que qualquer tradutor se deve de sentir orgulhoso quando isto acontece, sobretudo quando chega ao extremo de penetrar na própria identidade coletiva. Aconteceu isto no estado espanhol com séries como Dragon Ball e Shin-Chan.

Em Espanha, a maior parte das crianças saía da escola e via os animes transmitidos pela FORTA, uma federação que integra os canais de televisão das diversas comunidades autónomas. Por esta razão, estes programas tinham no mínimo quatro versões, uma em cada língua oficial, que eram transmitidas na área correspondente. O objetivo destes canais é que os membros dos diferentes grupos culturais tenham acesso a conteúdos na língua própria, no caso dos miúdos por razões claramente didáticas.

Um dado que os nossos leitores portugueses acharão curioso: Enquanto as crianças portuguesas viam alguns animes como Doraemon ou o Ninja Hatori em espanhol, em Espanha, só os miúdos das comunidades de línguas castelhana tinham acesso a esta versão.

Provavelmente o êxito mais indiscutível e polémico seja o de Shin-Chan no caso da Galiza e da Catalunha. A personagem principal, um menino de 5 anos, possui uma voz caraterística e utiliza uma série de expressões com fins humorísticos carregadas de duplos sentidos. Durante os anos que o programa foi emitido em galego e catalão, estas expressões passaram a fazer parte do dia a dia das crianças e dos pais, melhorando sensivelmente o domínio destas línguas e tornando o seu vocabulário mais expressivo, tal como um Camões infantil do S. XXI. A própria dobradora explica-nos como, a partir da tradução, aprendeu expressões que desconhecia por ser a língua familiar dela o castelhano:

Eu não sou galego-falante e não tenho referências próximas na minha família para escutar falar em galego e então há coisas ou frases que escutei por primeira vez dobrando Shin-Chan [min. 27:47].

Porém, o debate não demorou em surgir: O tal Shin-Chan era um menino muito malcriado, e isto foi aproveitado por determinados sectores contrários ao plurilinguismo para pedir a retirada do programa do horário infantil. Assim, a série Shin-Chan chegou a três parlamentos diferentes, como também aconteceria com Dragon Ball na Galiza quando a versão em galego não foi incluída no DVD. Depois de três anos de emissões, a série foi comprada por Antena 3, um canal privado que passou a transmitir a série em castelhano para todo o território espanhol. A resposta da audiência galega e catalã foi claríssima: Shin-Chan já não era visto como próprio e as piadas já não eram engraçadas, portanto, o lanche de pão com Nutella passou a ser acompanhado por outros animes. Contudo, a dobragem conseguiu uma identificação tão profunda entre a cultura própria e a série que, considerando o menino japonês mais um menino galego ou catalão, a imagem passou a ser utilizada em todo o tipo de campanhas em favor das línguas e culturas cooficiais. Em resumo, podemos dizer que nestes casos é a tradução/dobragem quem faz o anime e não a contrário.

EUA: Doraemon só aceita pagamentos em dólares

O caso mais extremo de «aculturação» ou localização é a edição da própria imagem a fim de eliminar qualquer elemento estrangeiro. Esta é uma prática cada vez mais habitual nos EUA, onde já era frequente censurar qualquer cena violenta ou com referências de carácter sexual. Mais uma vez, surge a polémica: é realmente necessário que os pagamentos se realizem com dólares, os refrigerantes sejam americanos e os jantares se façam com pizza?

Provavelmente as crianças nem sequer reparem nestes pormenores, mas desde os anos 90 o público deste tipo de animes evoluiu e hoje os fãs mais fiéis são jovens entre os 18 e os 30 anos, muito mais exigentes e com conhecimento da língua e cultura japonesas. É desta nova audiência que iremos falar mais adiante.

Imagem traduzida num episódio de Doraemon

Em Deculture escreveram um interessantíssimo artigo com alguns exemplos curiosos.

O Japão como produto

A tradução amadora de manga e anime surge nos anos 90 como resposta à falta de materiais nas línguas ocidentais. As grandes editoras e produtoras japonesas poucas vezes se arriscavam a ultrapassar as fronteiras do mercado japonês e os fãs que, quer seja através da televisão, quer seja por outras vias, conheciam a animação japonesa, procuravam outros meios. Com a chegada da Internet esta tarefa tornou-se cada vez mais fácil. Por um lado, não era necessário partilhar espaço físico com outros fãs para permanecer em contacto com eles. Por outro, era possível aceder aos materiais imediatamente, sem necessidade de envios postais. Agora os fãs podiam não só aceder aos materiais não publicados na Europa, como também ter acesso aos que seriam publicados quase ao mesmo tempo no Japão. Em qualquer caso, apesar da falta de profissionalismo geral destes tradutores, conseguem formar grupos por vezes mais e melhor organizados do que os tradutores profissionais.

Qual é a maior diferença, portanto, entre aqueles meninos dos anos 80 e 90 relativamente aos fãs de hoje? Como aponta o estudante sueco Per Gyllenfjell na sua dissertação de licenciatura, o leitor habitual de manga, normalmente consumidor de anime, pretende aceder ao texto na sua cultura de origem, perdendo o menor número de elementos possíveis (um processo conhecido por foreignization, isto é, estrangeirização). A língua, neste caso, é unicamente uma barreira que impede ao público de alcançar a obra original, aquilo que está na cabeça do autor. Na tradução literária tradicional, o tradutor não espera que a audiência procure todo tipo de informações cada vez que não percebe uma expressão, uma referência ou um costume. Em certo modo, isto é lógico, dado que antes da chegada da Internet estas informações não eram acessíveis. Mesmo assim, ainda hoje a tradução literária evita as notas de tradução, dado que interrompem a fluidez narrativa.

Notice me, senpai

O resultado deste tipo de intervenção é, no mínimo, curioso. Assim, é prática comum evitar a tradução de certas partículas indicativas da hierarquia social (senpai, sensei, chan…) ou a tradução de conceitos que não apresentam um equivalente exato nas línguas ocidentais. Por vezes, a euforia nipónica provoca excessos questionados mesmo pelos fãs.

O tradutor sensei

O maior mérito dos tradutores amadores de anime é que frequentemente assumem também o papel de professor de língua e cultura japonesas. Ao colocar notas de tradução em todos aqueles elementos que precisam de uma explicação cultural, o tradutor voluntário espera que a audiência se submerja totalmente no mundo nipónico. A vocação didática destes tradutores pode chegar ao ponto de incluir explicações no final de cada episódio ou, no caso do manga, depois de cada capítulo. Geralmente, os tradutores amadores optam por uma linguagem informal e podem introduzir informações sobre a trama que podem ter fugido ao espectador ou, no seu caso, ao leitor.

Página de uma versão manga de Aku no Hana, com explicações sobre o capítulo

A hora do karaoke

Não podemos terminar este artigo sem nos referirmos ao que talvez seja o maior mérito dos tradutores amadores: revelar para o resto da humanidade como as músicas japonesas são pirosas.

As traduções de anime japonês efetuadas por não profissionais diferem das profissionais em que, quer por falta de meios, quer pelos motivos anteriormente expostos, a música permanece em japonês. Porém, é habitual fornecer no mínimo duas ou três legendas diferentes.

  • Original em japonês, para os fãs mais fãs.
  • Versão japonesa em caracteres ocidentais, para aqueles que não se importam com cantar sem conhecer a língua.
  • Versão traduzida, para o público geral e para que os cantores amadores saibam o que estão a cantar.
Abertura de Junjo Romantica. Podemos ver as legendas em japonês, a sua transcrição ao alfabeto latino e a tradução ao espanhol. Também podemos observar os títulos do anime em japonês e os títulos referentes ao editor da tradução em espanhol.

Mas afinal, os amadores são bons ou não são bons?

Se considerarmos todas as licenças que acabamos de mencionar, a qualidade dos tradutores amadores é muito variável. Frequentemente eles próprios são aprendentes aproveitam a tradução como mais uma ferramenta de autoaprendizagem. Obviamente, os erros são frequentes e em muitos animes é impossível ou muito difícil seguir o argumento. Não obstante, só há algo pior do que uma tradução má: uma tradução inexistente. Portanto, sem pretendermos entrar na polémica da cópia ilegal de conteúdos, pensamos que a tradução serve, de facto, para abrir novos mercados. Apesar de limitar parcialmente as vendas, esta prática permite que no momento em que as produtoras decidem entrar nos mercados ocidentais encontrem já grupos de fãs organizados e, não esqueçamos, os autênticos fãs compram… quer sejam livros ou merchandising.


Publicado em proverbis.net a 24 de março de 2016. Coautoria: Ana Silva.