Bolinhos de Bacalhau

Como manda a praxe, o apartamento da tia é o local dos almoços de família. Domingo, grande bocejo nostálgico, dia dos bolinhos de bacalhau da avó, de receita portuguesa, enrolados pelas mãos bem brasileiras de Nilza. No horário cerimonioso das treze vão chegando todos ao fidalgo apartamento, do asfalto abrasador da avenida ao frio mármore frente à Atlântica. As vastas janelas apartam todos do calor carioca, o ar condicionado agora permite que a vista seja apreciada como uma tela tropical de Heade. O mar toma conta da sala de estar em toda sua importância e um ou outro convidado percebe que naquele exato momento gostaria de estar dentro d’água. Não na de Copacabana, é claro. Logo, os pais, irmãos e primos todos sentam-se em seus canapés solenes. Bebe-se vinho branco, garrafa em balde de gelo feito da água do filtro, a tia só gosta que Nilza use água filtrada. A senhorinha antiga senta-se na poltrona mais dura, afinal tem problema de coluna. Veste uma tipoia no braço direito para recuperar o ombro operado, além de um turbante lilás, pois já há algum tempo acredita estar ficando calva. Apesar da idade beirando os oitenta, mantem-se inflexível e quase torna as evidências de sua fragilidade em adereços. Seu filho, primogênito governante, faz um comentário a respeito do pano na cabeça da mãe, confiante na comédia do preconceito, e consegue alguns risos. Nilza não acha graça, mas sorri de qualquer forma. “O Senhor aceita mais vinho, Seu Primogênito?” Enquanto a mesa é posta em pompa todos discutem a capa da revista. Nilza espia e vê na foto a presidenta com chifres do demo. Estufando-se de bolinhos, quase todos agora xingam e Nilza pensa em como é feio reclamar de boca cheia. Alguns dos mais jovens se opõem aos mais velhos. Entre contras e a favores o almoço é servido. A discussão continua à mesa e a tia pede para trazer mais vinho. Nilza toma um golinho antes de levar a garrafa, mas na cozinha decide que não gosta do gosto. O assunto da conversa parece não mudar, mas Nilza não se surpreende. Parece que é só sobre isso que se fala na casa da tia esses dias, tudo que se lê nos jornais, tudo que o galã do telejornal anuncia. Nos quatro cantos da longa mesa só se escuta ladrão, petrolão, comissão, delação. No meio o camarão ao açafrão chega até a esfriar de tanto que se fala. Por fim Nilza pode tirar os pratos e trazer o sorvete. “Não esse, Nilza, traz o do potinho redondo, de menta”. Onde já se viu, tomar sorvete verde! São então levados para sala os Nespressos — que até café hoje em dia tem nome próprio. Já escurece e os convidados finalmente dão uma trégua. Todos parecem ter cansado depois de tanto comer e beber e sentar e dizer. Assiste-se a um futebol na TV, fuma-se uns charutos na varanda, lava-se uma louça na pia. Finalmente, um a um, os familiares começam a ir embora, todos para casa. Todos menos a tia e Nilza.
O apartamento fica em silêncio, apenas o som de pratos, talheres e copos limpos. Mais à noite tudo está arrumado e a tia vai deitar-se. Nilza dá um pulo na sala e abre as janelas. Ainda toda vestida de branco, deixa a maresia oxidar seu cabelo negro. Passou a tarde inteira passando frio dentro do apartamento e se deixa arrepiar agora com as baforadas marítimas. Lá em baixo no calçadão só se vê umas meninas da noite e uns indigentes. No horizonte escuro e indefinido, Nilza só vê as luzes douradas dos navios, que a essa hora não pertencem nem às águas nem aos céus.
gabrielabreu