Sangrar para enxergar

Se perder para um artista é não saber mais como expressar o que ele sente pela sua arte. O pintor encara a tela em branco, o músico segura o violão num silêncio ensurdecedor, e nós, escritores, ficamos com a caneta na mão tentando entender o que estamos sentindo, como toda aquela angústia vai sangrar de nós no papel. Eu não sangro faz meses.

Eu ando com um peito cheio desse sangue que está coagulando, pois não consegue vazar pela garganta que anda cheia de nós. Às vezes ele vira água e consegue escapar como lágrima e me desafogo um pouco. Um pouco.

Segurava minha caneta por várias horas. Em alguns momentos tentando me cortar para o sangue sair, mas sempre acertando em lugares aonde as artérias pareciam secas. Estava tudo no meu peito fervendo, às vezes subindo para a cabeça e inundando pensamentos bons em um banho de vermelho até tapar minha visão de uma luz no fim do túnel.

Quando se perde a força para fazer o que antes era necessário para viver, você se vê em um quarto escuro, quente, que fede a sangue, que sua voz se perde e não é possível se expressar. Você já tentou rasgar os pulsos, já tentou ferir seus joelhos e nada, então você se olha no espelho da alma e rasga o único lugar que você estava com medo de tocar, pois sabia que não teria controle do sangramento. Essa é a questão, tem que sangrar descontroladamente.

Todo o vermelho escorre do seu peito e agora o que resta é você pegar as folhas em branco e estampá-las com cada gota daquele sangue que te afogou por meses, decidir o que cada página vai carregar e endereçar para quem ou o quê colocou aqueles litros de vermelho ali.

As luzes ainda estão apagadas, estou pegando minhas páginas, dói sangrar tanto assim. Mas é reconfortante voltar a enxergar sem o vermelho tapando a luz.

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