O dom da fé

“A fé é a garantia dos bens que se esperam, a prova das realidades que não se veem. É pela fé que compreendemos que os mundos foram organizados por uma palavra de Deus. Por isso é que o mundo visível não tem sua origem em coisas manifestas”(Hb 11,1.3)
É comum que a fé seja objeto de curiosidade, principalmente para os que não creem. Como poderíamos explicar o que seja a fé? Seria ela simplesmente um sentimento? Algo criado por nossa mente para nos consolar em nossas aflições? Ou algo sobrenatural infuso em nossos corações? Será que realmente é possível explicá-la? Penso que ao tentar explicar o que ela seja , não se deve fazer parecer que a fé seja considerada como o produto de um ato estritamente humano, como se não tivesse algo de sobrenatural. Com efeito, os cristãos compartilham da crença de que a fé é algo que vai além da esfera da normalidade. É isto que diz o Catecismo da Igreja Católica(CIC):
Quando Pedro confessa que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo, Jesus declara-lhe que esta revelação não lhe veio da carne nem do sangue, mas do seu Pai que está nos Céus (Mt 16, 17). A fé é um dom de Deus, uma virtude sobrenatural infundida por Ele. Para prestar esta adesão da fé, são necessários a prévia e concomitante ajuda da graça divina e os interiores auxílios do Espírito Santo, o qual move e converte o coração para Deus, abre os olhos do entendimento, e dá a todos a suavidade em aceitar e crer a verdade (CIC, §153)
Neste sentido, penso que a fé não pode ser considerada como algo corriqueiro e comum em que qualquer um pode crer de maneira simplista. Acredito que o ato de fé sempre requer uma devida seriedade e se dá num processo constante e gradual. Se entendemos a fé como dom de Deus[1], reconhecemos que devemos pedi-la incessantemente, tal como fez o pai do menino endemoniado.[2] Por outro lado, posso considerar que a fé seja um ato autenticamente humano, na medida em que a nossa “inteligência e vontade” podem cooperar com a graça de Deus. De fato, “não contraria nem a liberdade nem a inteligência do homem confiar em Deus e aderir às verdades por ele reveladas”[3]. Assim, não é incongruente buscar razões para a fé, tal como Santo Agostinho alerta seu amigo Evódio:
Agora, porém, a respeito dessas verdades confiadas à nossa fé, esforçamo-nos de ter igualmente um conhecimento pela razão, mantendo-as com certeza plena. (De libero arbitrio I, 3,6)
Entretanto, como podemos explicar as razões pelas quais cremos no sobrenatural? Parece um tanto estranho tentar provar, a partir da natureza, algo que a ultrapassa. Mesmo as chamadas “provas” da existência de Deus se fundamentam nos efeitos de sua existência e não em uma “causa”[4] . De todo modo, uma vez esclarecido isso, desejo agora falar rapidamente sobre alguns aspectos fundamentais para a fé , quanto ao testemunho moral e à autoridade.
Sem dúvida, eu diria que se fui convencido de ter uma fé realmente sensata, foi em primeiro lugar pelo testemunho moral dos adeptos dessa fé do que pelas eventuais provas filosóficas de alguns pensadores cristãos. Na verdade, a ideia de moralidade em mim sempre esteve presente, desde a infância, quando em meu próprio íntimo sentia-me mal por realizar determinado ato para com alguém, por onde minha própria consciência me acusava de erro.
Ainda jovem, nunca soube explicar de onde aquilo vinha e nem o porquê de isso me instigar tanto. A necessidade de um verdadeiro seguimento moral da parte dos cristãos, particularmente, é bem frisada já pelo próprio Jesus, sabendo que desvios dessa mesma moralidade podem gerar os escândalos.[5] Tal é o caso dos padres envolvidos em pedofilia, ou dos “pastores” que mercantilizam a fé. O fenômeno do escândalo, portanto, faz com que as pessoas cada vez mais se afastem de uma religião ou até mesmo de uma causa política, se não se conhece o restante que estas doutrinas possam oferecer. Mas o contrário também ocorre, ou seja, de que o exemplo moral dos adeptos de uma crença possa aproximar um descrente.
Mesmo assim, não parece ser correto pensar que apenas o testemunho moral baste para crermos em uma doutrina. Poucos duvidam que Chico Xavier tivesse boas intenções ao ajudar muitos pobres e, nem por isso, todos que o admiram por tal feito são espíritas. Penso que para um discurso ser convincente, seja ele qual for, tem de estar bem fundamentado. E um fundamento bem interessante é o da autoridade. Boa parte de nossas crenças, mesmo as que não se referem ao sobrenatural, são em razão de reconhecermos a autoridade de alguém. É assim que, por exemplo, tomamos o remédio prescrito pelo médico na maioria das vezes, sem nos questionar se é o medicamento correto. O ponto é como sabemos quais são os critérios para se reconhecer a autoridade de alguém sobre determinado tópico. E, geralmente, reconhecemos isso a partir de constatarmos o conhecimento de tal pessoa. É assim que confiamos no médico que nos cura, no engenheiro que constrói coisas, entre outros casos.
Todavia, parece que não só o conhecimento em si nos permite aceitar a autoridade de alguém, mas também a forma com que este saber é passado para nós. Foi assim que, como cita a Escritura, multidões acreditavam em Jesus, que pronunciava sua pregação demonstrando certa autoridade em seu modo de falar, tal como o próprio conteúdo de sua doutrina parecia apresentar.[6] O Cristo trazia consigo uma pregação que exigia das pessoas o reconhecimento de autoridade nele, já que ele arrogava para si esta autoridade diversas vezes.
Contudo, devo dizer que nem só uma pretensa autoridade é causa para crermos em alguma doutrina, já que enquanto somos seres humanos, parece que estamos sujeitos a falhar e se vê que mesmo os que dizem ter autoridade num assunto, podem errar, tal como os casos dos edifícios que caem e das medicações erradas prescritas por médicos. Fora o fato de que podemos falhar no exame de reconhecimento de autoridade em alguém ou no contexto de alguém fingido que deseja parecer ter grande autoridade sobre algo, enquanto não tem e é um mentiroso. Assim, para além do testemunho moral e autoridade, creio que a fé principalmente pode também ser fundamentada ao constatarmos certa veracidade quanto ao que é dito.
Porém, se na ciência empírica isto é mais evidente, quando tratamos da fé isso se torna mais complicado. Conta-se sobre as aparições místicas e privadas de Deus a muitas pessoas, tal como relatadas na Escritura no caso de Moisés[7], Elias[8] e Paulo[9], por exemplo, ou mesmo entre figuras como São Francisco de Assis ou Santa Teresa D’Ávila. Seja como for, essas aparições enquanto privadas não nos dizem muita coisa, alguém simplesmente objetaria que não são passíveis de prova. Há também o caso dos milagres aprovados pela Santa Sé que são sempre avaliados por equipes de especialistas para as canonizações. Mas ainda assim, qualquer um poderia se opor a eles, já que não os presenciou. Por isso, apesar de os milagres comprovados por cientistas serem pontos que podem dar mais relevância para a fé de alguém, ainda assim não são suficientes. A menos que um objetor cético receba uma revelação privada de Deus, ele não se convencerá por exemplos de milagres aprovados. E, se entendemos que Deus e os anjos são entidades imateriais, vê-se que para crer na existência dos mesmos não será possível realizar experimentações sensíveis, salvo em caso de um privilégio especial dado por Deus a algumas pessoas.
Assim, se a veracidade de uma doutrina não é constatada em razão da verificação empírica da existência das figuras sobrenaturais, talvez o seja pela relevância própria dos ensinamentos propagados. De fato, as religiões por vezes ensinam aspectos morais e, portanto, talvez os descrentes possam ser convencidos se enxergam naqueles ideais algo de bom e útil para sua vida.
Por conseguinte, é notório que para a ocorrência do ato de fé em alguma religião, muitos fatores podem influenciar. Entre os que elencamos aqui, estão o testemunho moral, a autoridade e na identificação da veracidade das doutrinas a partir da relevância de seus ensinamentos morais e segundo a proposta racional filosófica que buscará as provas para a existência do sobrenatural.
Viu-se também que os eventuais milagres são úteis para a crença, mas que são como que um complemento para se crer racionalmente. E, evidentemente, faltaria apenas talvez falarmos do aspecto cultural propagado no ambiente familiar, que por se tratar de um hábito incutido nas pessoas, acaba-se não se questionando a validade do que se crê. Desta forma, pode-se ter fé em alguma religião por estar vinculado a um meio que a propaga. Porém, como se vê, é possível questionar isso em algum momento e assim, não será um bom critério para crer em algo o fato de estarmos inseridos em um meio que difunde esta crença.
Após estas breves considerações sobre a fé e seu modo de aquisição, percebe-se que nenhum dos “motivos racionais” apresentados são suficientes em si mesmos. Cada um deles pode ser problematizado, mas em conjunto, ao que parece, eles provocam em nós como que uma “pulga atrás da orelha”, que nos dá um impulso para crer, como que em um salto de fé. A observação da própria moralidade, a verificação da autoridade, o exame das razões metafísicas, a contemplação da beleza das coisas, o prazer interior e sentimental da oração, todas essas coisas são como que sinais, mas se tomados separadamente e isolados nada provam. Mas então devemos permanecer numa opinião agnóstica, em que nada podemos saber sobre o que vai além da física?
De modo algum. Como São Tomás de Aquino diz na Suma Teológica(STh), “nada impede que aquilo que, por si, é demonstrável e compreensível seja recebido como objeto de fé por aquele que não consegue aprender a demonstração”.[10] Portanto, talvez seja possível verificar a existência daquilo que é sobrenatural, ainda que para a maioria das pessoas a crença em algo que vai além do sensível venha da fé. Pois, em verdade, a fé é caracterizada por uma confiança em algo que não necessita ser demonstrado.
A questão é que, no âmbito humano, damos esses saltos de fé frequentemente ao acreditar em muitas coisas sem demonstrarmos empiricamente. Com efeito, por exemplo, cremos que alguém nos ama e, na verdade, não podemos ler mentes, mas cremos naquilo que nos dá sinais, a saber, as ações daquele que diz nos amar. Ainda assim, essas ações em si mesmas não são provas exatas, mas nem por isso ficamos paranoicos. Na realidade, penso que se tivéssemos de demonstrar empiricamente tudo, não haveria convívio social, pois desconfiaríamos de cada um incessantemente. De todo modo, essa fé de confiança é um aspecto humano, natural e corriqueiro. Como salientei no início, a fé a qual me refiro não é apenas humana, mas é também um dom sobrenatural. Isto se mostra tanto se já se tem fé, como fazendo suposições.
Ora, se há uma entidade que ultrapassa o plano sensível, ao qual estamos restritos, é evidente que esta entidade precisará se mostrar a nós de alguma maneira especial, já que nós mesmos não possuímos essa capacidade. Assim, vê-se que a fé em uma figura divina, se existir, é algo sobrenatural e concedido às pessoas como dom. Porém, no que diz respeito ao cristianismo, aqueles que de alguma forma já se sentiram tocados de modo que já desejam aumentar a sua fé, precisam insistentemente pedir a Deus esse dom. Como diz o CIC, “a preparação do homem para acolher a graça é já uma obra da graça. Esta é necessária para suscitar e manter nossa colaboração na justificação pela fé e na santificação pela caridade”[11].
Assim, reconhece-se que a graça, entendida como dom de Deus aos homens e que possibilita também o dom da fé, precede a colaboração nossa e, de certo modo, estará à disposição do homem, enquanto este é “imagem e semelhança de Deus” e amado por Deus, que segundo a doutrina cristã, deseja que todos se unam a Ele.[12]
NOTAS
[1] “Pela graça fostes salvos, por meio da fé, e isso não vem de vós, é o dom de Deus” (Ef 2,8)
[2] Cf. Mc 9,24
[3] CIC,§154
[4] Cf. STh I, q.2, a.2
[5] “Caso alguém escandalize um destes pequeninos que creem em mim, melhor seria que lhe pendurassem ao pescoço uma pesada mó e fosse precipitado nas profundezas do mar. Ai do mundo por causa dos escândalos!” (Mt 18, 6–7)
[6] “Aconteceu que ao terminar essas palavras, as multidões ficaram extasiadas com o seu ensinamento, porque as ensinava com autoridade e não como os seus escribas.”(Mt 7,28–29)
[7]Cf. Ex 3 e 33,18–23
[8] Cf. 1Rs 19,11 ss.
[9] At 9,3 ss e 2Cor 12,2–6
[10] STh I, q.2, a.2.
[11] CIC,§2001
[12] Ez 18,23; Jo 3,17 e 17,21; Rm 5,18–19; 1Tm 2,4
