Saudades — Primeira

A primeira saudade que bate é sempre da língua. Sim, estou falando exatamente de falar português. Saudades de poder se expressar o dia inteiro falando sua língua-mãe, pois por mais que você se expresse bem numa segunda língua, tente se imaginar falando apenas esse idioma a semana inteira, o mês inteiro, “like no Portuguese at all”. Chega uma hora que mistura tudo e cansa.

Desde criança, sempre fui o tipo de pessoa que conversa comigo mesmo, literalmente falo sozinho como se estivesse conversando com alguém. Passei a fazer isso também em inglês. Seja tomando banho, cozinhando, limpando a casa ou em processo de criação das minhas fotos, falo sozinho em inglês tanto quanto anoto o que penso e observo. Além disso, moro numa casa com 3 seres humanos e 2 cachorros — todos canadenses — , ou seja, converso apenas em inglês com eles. No ambiente de trabalho sou o único brasileiro, na escola tenho 2 amigos na sala que são brasileiros, converso frequentemente com eles por mensagens, conversamos em português geralmente pelos corredores, mas tem aquela questão de respeito pelos demais, então nos policiamos e tentamos falar inglês sempre que lembramos, porém agora estamos de férias de verão.

O inglês acaba fluindo sim naturalmente, além disso evolui mais rápido quando há uma imersão desse tipo, a transição entre os dois idiomais fica mais rápida e o cérebro mais afiado pra pensar e responder rápido no segundo idioma, mas sabe aquela história de que só damos valor pra algo quando deixamos de ter? Então…

“Bem que se padece e mal de que se gosta.” — Definição de saudades dada pelo escritor português Manuel de Melo, em 1660.

Tudo isso pode parecer muito estranho e talvez nem esteja fazendo tanto sentido pra você, entendo perfeitamente pois até bem pouco tempo atrás eu também pensava assim e jamais imaginei que poderia um dia sentir saudades de falar português. Certo dia, me deparei inclusive com um belíssimo texto de Marcio Leibovitch que enumerou os motivos que lhe fez decidir retornar ao Brasil após ter morado 11 anos no Canadá (coincidentemente), e fiquei surpreso quando li que o idioma pesou em sua decisão. Me questionei na hora: “Será que um dia vou passar por isso também?”

“Por mais fluente que você seja, o seu vocabulário em outra língua nunca será tão rico. Muitas vezes você percebe que o seu cérebro está fazendo um esforço incrível tentando achar palavras para expressar aquilo que, em português, já está na ponta da língua. Obviamente isso varia de pessoa para pessoa, depende do tempo que você está fora e de outros fatores. Mas é um inconveniente considerável — e insuperável.” — Veja mais em: http://projetodraft.com/esta-na-hora-de-voltar-ao-brasil/#sthash.a26fxhfJ.dpuf

Saudades de parte da minha essência que deixa de existir. Abre-se então espaço para um novo personagem construído em uma segunda língua. Pois a língua que falamos pode influenciar nos nossos comportamentos, em como vemos cores, como enxergamos o mundo e até em nossas emoções e pensamentos. Eis o novo personagem sendo moldado, como se você estivesse vivendo em um filme, porém sem legendas na sua frente quando as pessoas conversam. Acredito sim que língua e cultura fazem parte de nossa essência, que carregamos no peito pra qualquer lugar que formos e por isso faço sempre questão de sorrir (cheio de orgulho) ao dizer pra algum(a) gringo(a) que sou brasileiro e que lá nós falamos português, não espanhol. Jamais terei vergonha do que sou.

No próximo dia 31 de maio completo 2 anos que estou morando aqui em Vancouver, Canadá. Voltei pro Brasil apenas por 2 semanas pra passar último Natal e Ano Novo com família e amigos, devido ao “Winter break” da escola. O pouco tempo foi intenso e suficiente pra recarregar as barras de energia e diria que essencial para ter certeza que só damos o devido valor pra algumas coisas na vida quando deixamos de tê-las, infelizmente. Egoísmo nosso esse de querermos ter tudo e nunca querermos perder nada, como se não houvesse saudades na felicidade e se não pudéssemos ser felizes também na saudade.

“Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.” — Clarice Lispector em “De amor e amizade: crônicas para jovens”.

Finalizo minha homenagem à língua mais linda do mundo com o maestro: