A ética do capataz e o bolsonarismo de classe média

Gabriel Gutierrez
Nov 4 · 6 min read

Como disse Mano Brown no célebre discurso na Lapa durante a campanha de Haddad em 2018, não dá para achar que todo mundo que votou em Bolsonaro virou nazista de uma hora para a outra. Muitos preferiam Amoedo ou Alckmin, mas aderiram ao capitão para combater o petismo. Mas há outra razão para que um certo eleitor bolsonarista despreze a consciência prática de fatores políticos e econômicos concretos, e identifique-se especificamente com a pessoa do ex-capitão. Essa identificação é exercida especialmente sobre homens, mais ou menos brancos, de uma classe média cada vez mais empobrecida. Historicamente, o fascismo sempre nasce dos setores mais empobrecidos e desempregados da classe média. E são exatamente estes homens que constituem o que se pode chamar de núcleo duro do bolsonarismo.

Este eleitor é uma das principais vítimas da crise capitalista que colapsou a economia global, em 2008, produzindo, nos anos subsequentes, desespero, miséria e violência. Nos EUA, é conhecido como “White Trash”. No Brasil, este homem de classe média baixa achou que iria prosperar por conta da melhora econômica que experimentou nos períodos do Lulismo. Vislumbrou a possibilidade de subir um degrau e se aproximar de uma classe média mais estável que ainda é tratada com alguma dignidade no Brasil. Este cara achou que ia chegar naquele patamar de não mais depender dos serviços públicos e poder, enfim, livrar-se da ameaça que mais o apavora na vida: tornar-se realmente pobre no Brasil.

Mas os bancos e corretoras do mercado financeiro de Wall Street obviamente não estão preocupados com ele e produziram a maior crise econômica da história em 2008 e dizimaram a promessa de prosperidade que este homem esperava para si e para os seus.

A crise de lá começa a chegar aqui a partir de 2014. Como saída para o desemprego oriundo da crise, o cara virou motorista de Uber, que é ocupação típica da classe média precarizada pela falta de trabalho formal no capitalismo brasileiro. Um “emprego” no qual impera o ultraliberalismo, em que não há nenhuma garantia trabalhista, segurança no trabalho ou regulamentação.

Por isso, este cara trabalha 12 horas por dia num esquema de superexploração sem patrão explícito, que faz ele acreditar que ele é um empreendedor, um capitalista em formação. Neste trabalho, arrisca-se a todo tipo de situação nas violentas metrópoles brasileiras. É vítima recorrente da criminalidade urbana, que é uma das consequências mais nefastas da lógica histórica de ação política da burguesia escravocrata brasileira. Eventualmente, é roubado duas vezes por dia. Além disso, por estar empobrecido, mora em bairros de fronteira com as classes populares, onde o capitalismo brasileiro é mais brutal e violento. Este cara e sua família convivem diariamente com a insegurança na porta de casa.

Em resumo, este branco empobrecido está esmagado pelo sistema econômico. Fragilmente remediado, é alvo direto da estagnação econômica. Em resposta, nutre um sentimento difuso de ódio real e vontade de destruição da ordem social, que nada tem de bom para lhe dar a não ser precarizar sua vida constantemente. Ele está com raiva é quer derrubar o “sistema”. Porque, então, não se torna ele um anticapitalista?

Aí é que entra a malandragem: por conta do consumo intensivo de um noticiário liberal anti-Estado, oferecido pela mídia empresarial em aliança com sua grande estrela, a Operação Lava-Jato, o ódio deste homem mira o sistema político (a democracia liberal) e não o sistema econômico (o capitalismo). A TV ensina e ele aprende direitinho: a culpa de tudo é do governo e dos políticos, e tudo que tem a ver com o Estado é corrupto e ineficiente. A palavra “capitalismo” é palavra proibida na TV comercial.

Contemporaneamente, somou-se a este veneno em forma de noticiário o contato com o olavismo, e seu anticomunismo patológico, e com a paranoia anti-pautas identitárias que chega pelas fakenews nos grupos de whatsapp. Por isso, hoje, ele tem certeza de que quem produziu os efeitos do capitalismo que o fragilizam foi a esquerda, os comunistas, a comunidade LGBTQ, etc.

Assim, este homem branco de classe média deixado sem futuro pela crise tem seu ódio contra o sistema canalizado para Lula, especificamente, como figura pessoal emblemática do status quo político e, pior, como maior nome da “esquerda” brasileira. Além disso, seu ódio mira os “políticos” e a política institucional em geral. Por isso, ele acredita que todos os elementos que compõem a democracia liberal, como o Congresso e o STF, são corrompidos. Sobre o capitalismo e seus bilionários que seguem enriquecendo às custas de sua penúria, nenhuma palavra.

Aqui entra a figura de Bolsonaro. O ex-capitão personifica este ódio contra o status quo liberal. Sua figura tosca produz a imagem de um outsider da política tradicional. O que é, em alguma medida, verdade. Bolsonaro não participava da polarização entre PT e PSDB que organizou a disputa política nacional no Brasil durante praticamente toda a Nova República. Como político, durante 30 anos no Parlamento, sempre foi um ator menor. Uma figura folclórica do baixo clero, cujo reacionarismo truculento e inculto só tinha visibilidade por conta do palanque gratuito que os liberais do CQC e do Pânico lhe forneciam na TV aberta. Agora, na nova conjuntura de ascensão da direita radical, o fascismo cômico e sem jeito de Bolsonaro aparece aos olhos desse eleitor como um ato de rebeldia. O desrespeito constante ao decoro do cargo de presidente é visto com como sintoma de autenticidade e coragem de enfrentar o “sistema”.

A identificação com o ex-capitão estende-se inclusive ao nível pessoal. Bolsonaro também é um homem branco de classe média baixa, com um estudo precário e sem muitas perspectivas profissionais competindo no mercado privado. Figura de baixa patente no militarismo, é extremamente limitado intelectualmente. Daí o profundo ressentimento intelectual que nutre em relação à classe média culta e aos artistas e pensadores esquerdizados que povoam o mundo das artes e as universidades públicas. Ressentimento este, com a “esquerda caviar”, compartilhado por este homem branco de classe média empobrecido.

Mas a questão é: ainda que a pessoa de Bolsonaro seja este tipo popularesco de classe média baixa, seu governo é comandado por um bilionário, dono de um banco, cujo projeto econômico é notoriamente voltado para atender os interesses do agronegócio, do grande empresariado nacional, da elite do sistema financeiro, e, de maneira explicitamente subserviente, das elites econômicas e políticas dos EUA. Cristalinamente, seu mandato defende os interesses dos donos do dinheiro no Brasil e nos EUA, em detrimento das classes médias e baixas, deixadas cada vez mais sem nenhuma proteção social do Estado. Ou seja, não há nada mais distante dos interesses de um trabalhador de classe média empobrecido dirigindo um Uber ou um táxi numa cidade violenta da América Latina do que o projeto ultraliberal do banqueiro Paulo Guedes, que claramente defende os interesses de gente como ele. Mesmo não sendo originariamente da Casa Grande, como Collor, Sarney, Huck ou Dória, Bolsonaro está disposto a cometer até mesmo mais barbaridades do que o próprio PSDB para favorecer os ricos.

Aqui, o bolsonarismo pode ser lido como a ética política do jagunço revoltado. O jagunço é um homem subjulgado pelo grande poder numa determinada ordem social que lhe impõe a condição de subalterno, mas que também lhe dá algum poder e alguma distinção em relação aos outros pobres como ele. Este capataz vive cheio de raiva pela vida que leva, espremido no centro das contradições sociais mais tensas, entre os muito ricos e os muito pobres, e expressa politicamente essa tensão na violência que oferece a qualquer anseio de ruptura social que venha dos que estão abaixo dele. Como um feitor, serve à Casa Grande aplicando a brutalidade necessária à manutenção da ordem. Em troca, às vezes chantageia, às vezes recebe a migalha do senhor, que o preserva de opressão ainda maior e permite que ele tenha um pequeno ganho e não seja apenas mais um pé rapado num país escravocrata.

É esta ética do capataz que fascina o eleitor bolsonarista: ele mesmo um revoltado contra a ordem que acaba por militar violentamente a favor dela. Ataca o liberalismo político, mas não percebe as opressões da disputa econômica e acaba defendendo os interesses de uma elite de endinheirados que, no fim das contas, lhe despreza.

Mas no final dessa história, o grande capitão do mato, inimigo real dos políticos tradicionais, mas grande bajulador dos senhores do dinheiro, se dá bem. Ele e sua família. O mesmo não dá para dizer dos seus eleitores.

    Gabriel Gutierrez

    Written by

    Pesquisador aficionado pela música feitas nas Américas. Cientista Político e Jornalista que escreve obsessivamente sobre música e política.