Caminhada da Vitória
Eu fico triste quando essa cidade está cinza. A época de chuvas chegou e o quadradinho no centro do Brasil se fecha mais uma vez. O concreto molhado e o cimento queimado transbordam melancolia.

A saudade da imensidão azul nos horizontes do Planalto Central fica para depois e o laranja salpicado de ipês coloridos, só na próxima vida. Caminhar nessa cidade virou um símbolo de resistência e mais carros ocupam os grandes eixos de Brasília.
Mas há esperança. Há um motivo para sorrir e acreditar que o sol irá aparecer. Uma caminhada gostosa sem calafrios, onde há encontros inesperados e conversas aumentando na escala dos decibéis.
O que estou exatamente falando é a famosa peregrinação do almoço. Você já passou por este fenômeno? Não? Mude de emprego agora! (Não muda não, hoje está difícil)
Explicando um pouco mais dessa maluquice que acabei de inventar: meu prédio é um complexo de prédios (condomínio administrativo para ser exato). Tem muita gente por metro quadrado, mas ele é tão milimetricamente dividido que quase ninguém se vê pelos corredores. A não ser por uma hora exatamente, a hora do almoço.
O pátio cinza tentando ser menos chato com a feirinha de orgânicos é tomado por dezenas de grupos de pessoas. Cada setor com seu grupinho e cada divisão com sua galera do almoço. Fome, um pouco de sol e um pouco de hoje não vou comer sobremesa, estou de dieta. Ah que alegria! Seres humanos e não tela de computador.
As catracas da portaria recitam um musical enquanto as motos dos aplicativos começam a tomar o estacionamento. A dança dos carros nas vagas e o entra e sai de pessoas. Uma bagunça gostosa e cansativa. Um sinal de que todos precisamos da pausa para o almoço. A fome chega devastando nossos instintos, ficamos de mau humor.
Mas não nessa caminhada da porta do meu prédio até a entrada do condomínio. Todos estão de bom humor. Porque sabem que a sensação ruim de estômago vazio irá sumir. Nunca vi um trabalho em equipe ser tão bem sucedido enquanto as pessoas caminham para seus respectivos restaurantes.
O jogo de ontem, a série maratonada, o governo do país, uma celebridade qualquer fazendo bobagem. O que vamos comer e quem paga o sorvete? Assuntos variados que tiram o reflexo cinza da cidade nublada dos rostos das pessoas. Um instante de minutos que deixam a saudade do calor brasiliense vir com força.
Um pedaço do dia que me faz lembrar que caminhar neste mundo não é fácil, mas que, ao olhar para esse fenômeno, pode ser menos pior quando vivemos estes momentos. Essa pausa mais conhecida como hora do almoço é divina e deve ser apreciada e agradecida todos os dias. Lembre-se disso na próxima vez que atravessar a catraca do trabalho.
Respirar ar puro e não condicionado, esticar as pernas e saciar a fome. Quão gostoso é sair para comer, mesmo que seja na rotina de trabalho. Hoje, o dia estava cinza e chato. Após a caminhada da vitória ao sair para comer, o sol se abriu e me lembrou das delícias que Deus me deu.
Obrigado.
Revisão por Dona Angélica Pereira Schulz
