10 Meses e Eu

Gabriel Esteves
Sep 4, 2018 · 3 min read

Sonhei com você. Depois de sábado, isso ia acontecer, é claro. No sonho, a gente acordava na cama, depois de uma night, é claro, e decidia que voltávamos a namorar. Simples assim. Seguros e certos do que iríamos fazer como se estivéssemos decidindo o que comer na ressaca. Com a costumeira precisão de quando você simplesmente sabia que precisava comer um joelho depois da night.

Que merda. Sonhei com você. Já fazia pelo menos uma semana ou 10 dias, a maior folga dos últimos meses.

E a gente voltava. Não só a namorar, a gente voltava por uma estrada. Bucólica, de terra batida. Tínhamos ido separados, por caminhos diferentes, mas em algum momento nos encontramos e voltávamos juntos. Tinha chovido e havia lama e buracos, mas eu não me importava, não olhava muito para o chão, só para o lado e para frente. A cabeça erguida.

Demorou para darmos as mãos. Eu ora andava atrás de você olhando sua bunda, linda como sempre, ora apertava o passo e olhava para trás. Você já com o cabelo maior, solto. Usava calça legging de malhar vermelha que marcava toda sua gostosura e as dobrinhas estavam bem ali e óbvio que quando eu fixei o olhar e o sorriso malicioso, você riu envergonhada, se ajeitou e me mandou parar e eu gargalhei aquela risada alta que ecoou na estrada e uns pássaros voaram.

Uma hora, um carro veio mais rápido que o necessário na nossa direção, então eu, com meu habitual instinto protetor, me coloquei ao seu lado e te conduzi pro canto da estrada. Foi aí que eu peguei a sua mão e não larguei mais. Nem você.

Ficamos um tempo sem falar, apreciando a paisagem conforme ela mudava. Olhando o verde, as árvores, as aves pousadas na cerca, as vaquinhas como pontinhos pretos ao longe. E ouvíamos o som dos nossos passos abafados na terra fofa, o som das nossas pisadas em poças de lama, o som do riacho no fundo, dos pássaros batendo suas asas e gorjeando.

Alguma estrada de terra batida no interior do Mato Grosso do Sul, 2014. Foto: Gabriel Esteves

E, de repente, você me mostrava que tinha filmado o caminho da ida. Não lembro agora se era no celular ou em uma câmera. Mas assim que você dava o play, o vídeo se transformava no próprio sonho, como acontece no cinema. E aí, na verdade, não era play: você começava a rebobinar do fim pro início. E a paisagem ia voltando de trás pra frente. Assim como nós dois.

E em algum momento a gente chegou no nosso destino. A gente, nós de novo. O filme acabou. Era um sítio. Um lugar que a gente conhecia. Não, não era a Serrinha. Era um lugar novo, era velho pra gente, mas era novo.

E lá eu encontrava um livro. O seu livro. A capa era cheia de lírios e rosas brancas em meio ao verde. O título era “10 Meses e Eu”. Um romance sobre o tempo que a gente tinha ficado separados. Na orelha, uma foto sua. Me enchi de orgulho. Uma surpresa duplamente surpreendente e feliz.

Acordei triste e de pau duro. Não ficava de pau duro do nada há um tempo, tenho estado meio doente nos últimos dias. Não quero fazer as contas pra ver se já são 10 meses ou tá perto disso. Mas já fazia uns 10 dias que eu não sonhava com você. Talvez quando chegar a 100, eu comece a escrever um livro.

Gabriel Esteves

Ex-jornalista, ex-critor e fotógrafo. Eu gosto é do estrago.

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