A hora depois da vitória

A seleção brasileira ganha sua primeira medalha de ouro olímpica. É para comemorar, gritar, beber e cantar — até a meia-noite.

Amanhã é dia de lembrar do sete a um. Quem gosta, acompanha e estuda futebol sabe que essa vitória nos pênaltis contra o time alternativo do sub-23 da Alemanha — sem Leon Gotezka, seu principal jogador que estava lesionado — não vinga 1998, 2006 e 2014. Sim, o 3 a 0 sofrido para a França em 98 foi um prefácio do 7 a 1. Enquanto as seleções do mundo planejavam suas modernizações, aperfeiçoavam suas formações e estruturas, o futebol brasileiro chegou a final de uma copa do mundo se apoiando em individualidades. Para alegria dos ufanistas, a Argentina parece viver a mesma história em 2014.

A vitória veio com as cobranças de penalidades, contra uma seleção que já demonstrava esgotamento físico aos 20 minutos do segundo tempo. A seleção brasileira só começou a demonstrar cansaço aos 35, 40 minutos da etapa final. Ou seja, vinte minutos de superioridade física onde tínhamos a obrigação de marcar e evitar o tempo extra. Por qual razão isso não aconteceu? Pelas mesmas razões do sete a um.

Horst Hrubesch é treinador das divisões de base da seleção alemã desde 2000. Dos 18 jogadores que estavam disponíveis para a disputa da final, TREZE já foram comandados pelo treinador na seleção SUB-15. Jogando na mesma posição, na mesma função e no mesmo esquema tático desde o início da sua vida no futebol: é assim que Alemanha, Inglaterra, França, Bélgica, EUA e a maioria das seleções top 30 do ranking da FIFA formam jogadores. No caso especial dos alemães, esses jogadores também vivem as mesmas coisas em seus clubes. Inclusive a mais recente posição/função inventada no futebol vem da Alemanha, com a “carinhosa” contribuição de Pep Guardiola: o Raumdeuter — brilhantemente traduzido para português pela minha namorada como “o cara dos espaços”. Essa posição foi criada para atender jogadores como Muller, Gotze, Reus, Draxler… O tipo de jogador que tem surgido rotineiramente nas divisões de base da Alemanha, por isso a criação é tão nova e não existe tradução para a palavra nas outras línguas.

Na Alemanha os clubes são obrigados a destinar dinheiro apenas para as divisões de base. Nas competições continentais europeias os clubes são obrigados a inscrever na competição 4 jogadores formados pelo clube — apenas 25 jogadores podem ser inscritos no total. A liga alemã, Bundesliga, é gerida pelos clubes, a federação cuida apenas das seleções. Nas escolinhas alemães e inglesas se treina exaustivamente passe e posicionamento, não importando a sua posição no campo. Nada de cruzamento ou chutões. Trabalho, filosofia, futuro, estrutura, investimento e planejamento. Essas palavras traduzem os títulos da Alemanha na copa do mundo da FIFA no futebol masculino, na olímpiada e na copa do mundo sub-20 no futebol feminino. Sem falar nos terceiros e quartos lugares nas edições mais recentes da copa do mundo de futebol feminino e na Eurocopa de futebol masculino profissional e sub-20.

E assim, com esse breve texto, voltamos na manhã pós medalha de ouro a carregar o peso do 7 a 1. Ganhamos com as individualidades de Neymar, Weverton e Renato Augusto. Ganhamos de uma seleção alternativa sub-23 que apresentava maior solidez tática — graças a um trabalho de 16 anos — e colocou três bolas na trave. Ganhamos a medalha de ouro no futebol masculino e esquecemos as medalhas de todas as outras modalidades do torneio olímpico. Ganhamos e Marcos, Coronéis e Mirandas ainda comandam o futebol brasileiro. Ganhamos e Celsos, Vanderleis e Caetanos ainda possuem seu lugar no mercado de trabalho para técnicos na primeira divisão do nosso principal torneio nacional. Ganhamos a medalha de ouro ontem, mas o 7 a 1 ficará para sempre.