Sobre Cartas Abertas

Um jovem de 17 anos foi cantar no “Ídolos” há umas semanas em Portugal e foi ridicularizado pelas orelhas grandes. Eis a sucessão dos fatos:

  • Não foi aprovado, mas ficou famoso;
  • Ele ficou chateado, não quis voltar para a escola porque seus colegas debocharam de sua participação;
  • A produção do programa foi duramente criticada;
  • E um importante cronista escreveu uma carta aberta sobre o assunto em um jornal português de grande circulação.

E eu não gosto de cartas abertas, são agressivas, confusas, parecem sempre um ataque descabido às pessoas e, digo isso por experiência própria porque já fui acusado de coisas que não sou em algumas dirigidas a mim.

Em uma carta aberta escrita após um episódio como esse, poderíamos discutir os temas que servem de pauta nas universidades, nos programas de TV, nas reportagens de jornais. Seria normal se lêssemos uma análise sobre bullying, padrões de beleza, opressão, e todas aquelas vulgatas que os adeptos do politicamente correto adoram jogar na roda de debates.

Felizmente me enganei. O autor, Ferreira Fernandes, faz uma abordagem completamente inesperada. O português europeu deixa o texto, que pode ser acessado aqui, ainda mais agradável de ler. É uma carta aberta gentil, que não tem ameaças, ressentimento, nem discurso piegas.

É um verdadeiro textão, mas gostaria de ler mais cartas como essa, com leveza, humor fino, coerência, de escrita simples, que nos ensina a levar a vida, apesar das adversidades, que não vitimiza mais ainda a vítima e em nenhum momento fala em opressão, em ações judiciais ou em crueis padrões de beleza impostos pelo ocidente. Sugiro que leiam o texto na íntegra, mas adianto que Fernandes diz o óbvio e inevitável: que o rapaz tem sim orelhas grandes, que o Obama tem orelhas grandes, que o Mr. Spock tem orelhas grandes, mas eles são conhecidos mundialmente por outras qualidades que ofuscam o par de abanos.

Isso é resultado de uma geração que quer politizar — e acha isso normal e bacana — qualquer coisa, desde um passeio no parque, até um almoço em família. A poesia, a roupa, o modo de falar, comer, agir e dormir, passam a ser políticas, uma expressão de resistência contra esse mundo mau.

Minha conclusão é a seguinte: vamos medir nossas indignações, nosso mau humor, nossa chatice cotidiana, parças. Vamos rir das nossas orelhas grandes, narizes pontudos, dentes tortos, barrigas salientes e cabelos armados. Se a cada adversidade, publicarmos uma carta ranzinza atacando e acusando o mundo, não faremos mais nada na vida.

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