O mercado do futebol é uma metáfora neoliberal

Não, não é só pelo Neymar. Coloquei a foto ao lado porque talvez ela seja a parte mais humana (mesmo sabendo que faz parte de uma estratégia de marketing) de todo o processo — tanto o do craque brasileiro, que tornou-se o protagonista da transação mais cara do futebol ao assinar com o Paris Saint-Germain, quanto o do mercado da bola, que vive no século XXI seu período mais inflacionado em toda a história

Eu, que bato tanto na tecla de que o futebol é um quadro da sociedade mundial sendo pintado constantemente, com todos os seus conflitos, problemas, culturas e especificidades embutidos, não poderia ignorar que o cenário econômico que movimenta o esporte é cada vez mais preocupante e incontrolável.

Esses dias, recebi num desses grupos de WhatsApp a seleção dos jogadores mais caros da história do futebol — ainda sem Neymar presente nela.

Neymar Jr. poderia entrar no lugar de Dí Maria, o mais ‘barato’ do meio para frente. Mas ao olhar para esse time, nos deparamos com nomes medianos (com todo respeito aos fãs) como o de David Luiz, Kyle Walker, John Stones, Luke Shaw (só aí já foi toda a defesa), Gareth Bale (ótimo, mas não para esse patamar) e do centroavante Gonzalo Higuaín (os argentinos que falem por mim). Guardadas as proporções europeias perante o resto do mundo, é uma seleção fraca. Talvez não se defendesse um time de médio a grande porte do velho continente, mas para os mais caros da história? Aqueles que fizeram clubes bilionários depositarem uma grana absurda? E mesmo com o ingresso de Neymar, a tendência é essa seleção ficar pior com o passar do tempo. Um exemplo disso é a seleção dos mais caros dessa janela, também ainda sem o brasileiro:

Um time nota 5,5.

Eu entendo que o capitalismo evolui e as relações comerciais também. A precificação caminha e por esse motivo jogadores como Maradona e Cruyff não chegam nem perto de integrar essa lista. É aquela velha história de que há dez anos íamos na vendinha e comprávamos uma coca-cola, um salgadinho, um chocolate e ainda sobrava para umas balas 7Belo. Hoje, o mesmo dinheiro dá só para a coca-cola. Mas, no mundo do futebol, em que pé chegará essa inflação contínua e desenfreada, e para onde ela irá caminhar?

A cada nova janela podemos ver novos jogadores de níveis inferiores sendo comprados por preços cada vez maiores. As cifras são incontroláveis em uma guerra de bilionários que vivem em eterno leilão. Quero contratar um goleiro que vem sendo observado por outros? Gasto um valor extremamente maior ao seu valor real e levo ele para casa. No mundo financeiro isso é completamente comum, mas os preços ligados a essas transações não são.

A realidade é que o mercado do futebol é completamente descontrolado e desregulado. O regente, que deveria ser a FIFA e as respectivas federações locais, realizam interferência baixíssima no papel de Estado, isso para dizer que não fazem vista grossa frente aos maiores trambiques que os clubes usam para não caírem no famigerado “fair-play financeiro”. A questão é que não existe jogo limpo quando os atores são empresários (ou até países) que estão dispostos a torrar todo o dinheiro necessário para ter o que querem.

O futebol pode ser mais um exemplo das falhas do neoliberalismo. Os atletas representam um produto cujo preço nunca se estabiliza, dentro de um mercado que nunca se equilibra, mesmo com a alta demanda (afinal, talentos e gente disposta a comprar não faltam) e a grande concorrência existentes. O mercado futebolístico só inflaciona a cada dia mais. Não existem limites. Hoje, Neymar é o mais caro. Um craque, não estranho esse fato, apesar de concordar que nenhum ser-humano possa valer mais de R$ 800 milhões, mesmo o mais capacitado. Amanhã, provavelmente alguém inferior a Neymar (e a Messi, e a Cristiano Ronaldo) baterá a marca dos 200 milhões de euros pagos pelo clube francês, com dinheiro do Qatar.

Um dos problemas é: o sistema capitalista liberal, coordenado por grandes corporações, vive períodos cíclicos. Após períodos de abundância, vêm os de recessão e contração. Muita gente ainda pode quebrar a cara nessa história daqui a alguns anos.

Falta controle. Faltam tetos salariais rígidos impostos pela FIFA, limitação dos preços dos elencos, maior fiscalização nas janelas de transferências que inviabilizem os clubes driblarem as entidades através das mais diversas tramoias. Só para começo de conversa. Porque com o descontrole financeiro cada vez mais acentuado, caminhamos para um futebol ainda mais monopolizado e a cada dia menos democrático e competitivo.

Não são pagos 85 milhões de euros no Romelu Lukaku ou 65 milhões de euros no Álvaro Morata porque os clubes estão cada vez mais ricos, e por consequência mais aptos a encarar um mercado no qual o maior lance no leilão — até surgir quem topa bancar a multa rescisória — leva o atleta. São os mesmos clubes de sempre que estão cada vez mais ricos, e marginalizam progressivamente os mais pobres, que se contentam em vender uma grande peça a cada um ou dois anos para montar um time minimamente competente. Existem casos marcantes como os de Juventus e Bayern de Munique, que enfraquecem os adversários, contratando suas principais estrelas, para manterem sua hegemonia em seus respectivos países.

Esses grandes clubes — muitos deles usados por grandes empresários como verdadeiras máquinas de lavar dinheiro — contratam as melhores consultorias do gênero para definirem os melhores preços a serem pagos e a serem vendidos. Eles dizem que deve vir, quem deve ir e quem deve ficar. Como em uma situação prática neoliberal, não é a maior voracidade no mercado que dita o ritmo para cada um, mas sim os maiores que vão comendo os menores e ficando cada vez maiores. A centralização do poder econômico acarreta em uma proletarização de clubes que não acompanham o ritmo financeiro. Alguns gigantes sofreram com isso, como o Liverpool e o Milan, e tiveram que se render aos empresários bilionários para tentar retomar o antigo protagonismo no futebol nacional e europeu.

Voltando a Neymar, o PSG é exemplo de que isso tem chegado a um nível acima — algo parecido com o que o Chelsea sinalizou no início do século. Os proprietários do clube parisiense são basicamente os donos do Qatar, representados pelo príncipe Nasser Al-Attiyah. No futebol, o país do Oriente Médio vem dado cartadas geopolíticas e diplomáticas constantemente. A primeira foi a compra do time francês, que se tornou competitivo a ponto de ter chances reais de vencer a Uefa Champions League; depois, a chance de sediar a Copa do Mundo de 2022; e agora Neymar, o menino da baixada santista que agora será o maior garoto-propaganda dos árabes.

É isso o que querem os clubes mais ricos do planeta, os grandes empresários e até mesmo as entidades ‘administradoras’, que pouco se esforçam para encostar nas costas largas daqueles que deveriam estar no encalço. O futebol é espelho e agente de um sistema econômico que privilegia o mais rico, que banaliza os preços, marginaliza a história, elitiza uma cultura e centraliza todo o poder econômico e (por que não?) político. Existem possibilidades, e outros esportes estão aí para provar isso. Dependemos da ganância dos que têm pouco a perder e da boa vontade dos que não veem muito a ganhar caso a situação se reverta. Que a História seja generosa.

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