Keep calm and… já tomou seu rivotril?

Minha mãe sempre me ensinou a não tolerar nenhum tipo de dor. Está com dor de cabeça? Neosaldina. É a garganta que incomoda, filha? Cataflam. A rinite atacou? Neosoro. Tomou chuva de novo? Melhor pegar logo a cartela de Resfenol para prevenir uma possível gripe. Apesar dos avisos frequentes na tv e nos jornais impressos, minha mãe me continuou me medicando por conta própria. Também me deu alguns remédios mesmo antes de eu apresentar sintomas. Em suma, cortou o mal pela raiz.

Talvez seja por isso que, quase três anos atrás, me senti uma estranha no ninho quando meu namorado reclamou de dor de cabeça pela primeira vez e recusou o comprimido que lhe ofereci para alivia-la. “Não sou de tomar remédio” foi a explicação. Fiquei perplexa em saber que existem pessoas, muitas, aliás, que se opõe a esse hábito.

Resolvi pesquisar sobre isso, pois até então, era extremamente natural que eu procurasse, na caixa de remédios, um para suprir minha necessidade naquele momento. O Brasil é recorde em automedicação e, de acordo com o Ministério da Saúde, a prática pode aumentar a resistência de microorganismos, além de inibir a eficácia dos remédios. Li relatos de vários brasileiros que moram no exterior sobre o estranhamento que tiveram ao tentar comprar medicamentos sem receita médica ou experiências inusitadas pelas quais passaram ao procurar um profissional com alguma queixa.

A jornalista Andréa Werner, por exemplo, vive na Suecia e se assustou quando o médico disse que ela não deveria ter levado o filho, que estava febril, para uma consulta tão cedo. Segundo ele, o organismo precisa aprender a reagir a certas bactérias e vírus para não sucumbir a eles novamente.

Desde então, tenho me policiado mais e evitado tomar remédios com tanta frequência. Mesmo assim, diria que se automedicar, às vezes, não é um problema assim tão sério. Vivo em uma sociedade na qual é normal o indivíduo se diagnosticar e iniciar um tratamento para uma doença da qual não sofre. Isso tem acontecido cada vez mais.

Acho que estou ficando com…

Às vezes sinto angústia sem que haja um real motivo. Fico desanimada, cansada e não tenho o mínimo interesse em realizar algumas atividades rotineiras. Sofro também com uma baixa auto-estima e confesso que, se pudesse, passaria o dia inteiro deitada assistindo séries. Se pesquisar por esses ‘sintomas’ no Google ou em qualquer outro lugar da internet, serei rapidamente diagnosticada com depressão. Uma investigação mais profunda me indicaria quais os medicamentos para o meu tratamento: Amytril, Clonazepam, Fluoxetina, , Lexapro, Lorax, Lorazepam, Mirtazapina, Paroxetina, Sertralina, Risperidona e, o mais popular de todos, Rivotril.

Claro que, por serem os considerados “tarja preta”, não posso adquirir nenhum desses remédios sem receita de um psiquiatra. Não através dos métodos comuns pelo menos. Azar o desses profissionais de que, nos tempos em que vivemos, consigo comprá-los, sem qualquer prescrição, no mesmo local em que descobri que tenho tendências depressivas.

Doenças como Síndrome do Pânico, Transtorno de Ansiedade e a própria Depressão, que antes eram consideradas patologias que atingiam somente pessoas desequilibradas e tratadas com distanciamento pela sociedade, hoje são maus que pode acometer qualquer um. Na verdade, sentir qualquer indício de que algo não está perfeitamente bem já é motivo para procurar um tratamento não seguro. Usando remédios extremamente perigosos e capazes de causar dependência.

Quem realmente precisa desses medicamentos?

“Não sei quando isso começou mas percebi que tinha algo errado quando comecei a tremer, a chorar do nada no meio da aula, sentia meu coração acelerado e não conseguia sair do banheiro da escola. Eu tinha 16 anos e foi minha primeira crise. Passaram-se anos até descobrir que não era normal pensar no que colocar na bolsa 2 dias antes de sair, ir pessoalmente resolver problemas ao invés de telefonar, subir até o 10° andar de escada.”

O relato acima é da jovem Gabriela, que foi diagnosticada por um psiquiatra com síndrome do pânico e transtorno de ansiedade generalizada. O tratamento levou três anos durante os quais ela precisou se medicar com cloridrato de sertralina e o próprio rivotril.

“Aprendi que é como se fosse uma infecção . Se você tratar só com remédio pra curar a febre não vai adiantar, tem que tomar remédio pra acabar com a infecção também. Nesse caso o remédio pra infecção seria a sertralina e o pra febre seria o rivotril, que cura os sintomas momentaneamente.”

Sentiu grande dificuldade em se abrir com amigos e pessoas próximas. Ouviu inúmeras críticas, a mais comum delas: Você não se ajuda. Sempre vindas de pessoas que não entendem o real sofrimento de quem convive com esses transtornos.

Foi só no fim do ano passado, ao receber alta do psiquiatra e começar a adaptação de viver a vida sem os medicamentos, que resolveu compartilhar com os amigos do Facebook o que vinha passando desde a adolescência. “Vocês não fazem ideia do que é ter uma crise no meio do cinema, no trote da faculdade e ao tentar falar em público. Você sente que tá todo mundo rindo de você. Ninguém quer passar por isso”, desabafou no post.

A intenção era compartilhar isso pra alertar as pessoas a se cuidarem e, o mais importante, ser gentil com todo mundo inclusive com elas mesmas.

Esqueceu de tomar seu remédio hoje?

O uso de remédios tarja preta hoje é motivo de chacota. Basta ver uma pessoa agindo diferente do habitual que um amigo logo pergunta: Que é isso? Esqueceu de tomar seu remédio hoje? Não. Não esqueci. É só que decidi não me apropriar de uma doença grave através de uma pesquisa na internet ou do aparecimento esporádico de um ou outro sintoma.

Ansiolíticos e antidepressivos devem ser usados somente sob prescrição médica e por pessoas que tenham sido diagnosticadas com uma dessas doenças. Nunca tive depressão ou qualquer uma das doenças citadas. Convivo com pessoas que sofrem desses problemas e entendo que não é algo fácil de lidar. Especialmente quando não se recebe o apoio da família e dos amigos.

Mais que isso, acredito que seja tremendamente difícil viver em uma sociedade que te chama de louco (a), ri dos medicamentos que você toma por necessidade e não por vontade de ver como funciona ou com a finalidade de se sentir um pouco melhor por causa de alguma situação banal. Que compra esses mesmos remédios sem receita médica e diz sofrer de uma doença que não faz ideia do quão ruim é. A palavra para adotar é, e sempre foi, empatia.

Relacionado


Originally published at sobremundos.com.br on March 3, 2016.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Gabi Bandeira’s story.