PRECISAMOS FALAR SOBRE O SUICÍDIO

Andava com mania de suicídio e com crises de depressão aguda; não suportava ajuntamentos perto de mim e, acima de tudo, não tolerava entrar em fila comprida para esperar seja lá o que fosse. E é nisso que toda a sociedade está se transformando: em longas filas à espera de alguma coisa. Tentei me matar com gás e não consegui. Mas tinha outro problema. Levantar da cama. Sempre tive ódio disso. Vivia afirmando: “as duas maiores invenções da humanidade foram a cama e a bomba atômica; não saindo da primeira, a gente se salva, e, soltando a segunda, se acaba com tudo”. Charles Bukowski

Amélia* tentou suicídio diversas vezes, por meio de enforcamento e cortando as veias próximas ao pulso, coxas e antebraço. Também sucumbiu ao uso abundante de remédios para tirar a própria vida. Mesmo estando em um tratamento contra a depressão, afirma pensar constantemente em suicídio, talvez o tempo todo. Esta ideia simplesmente não a abandona.

Robert* chegou a cogitar suicídio em um momento em que passava por uma série de problemas financeiros, familiares e estava envolvido em relacionamentos desgastantes, sentindo-se cada vez mais rejeitado. Em um átimo, viu-se no terraço de um prédio. Seus pensamentos o confundiam e pensou em pular. Imaginava quem sentiria sua falta se morresse. Uma segunda vez, bateu a cabeça repetidas vezes contra a parede. Adormeceu por um dia inteiro antes de ser encontrado por um familiar.

Na maior parte do tempo, o suicídio é uma grande interrogação na vida de ambos. Quem iria ao meu velório? Eu finalmente me livraria de tudo que me entristece enquanto estou vivo? Toda essa pressão que sinto sobre mim irá acabar? Nenhuma destas perguntas tem uma resposta.

“A chave é fazer algo que marque você para sempre na memória das pessoas comuns. Algo que importe”. A frase é do livro Perdão Leonard Peacock, do escritor Matthew Quick. A obra conta a história do último dia de vida do adolescente Leonard, que no seu aniversário, coloca na mochila a pistola do avô e decide que irá assassinar o ex-melhor amigo e se matar em seguida.

Antes, porém, Leonard tem a missão de se despedir de quatro pessoas especiais. Um vizinho, um colega de escola, um professor e da garota de quem gosta. A cada capítulo, o jovem procura justificar os motivos que o levaram a tomar tal decisão, aprofundando também em dramas vivenciados e assistidos por ele ao longo da vida.

Tanto quanto Leonard, Robert quis se despedir dos seus amigos. Antes de tentar o suicídio, escreveu e guardou uma carta para cada pessoa importante de sua vida. E foi somente hoje, ao decidir escrever sobre este tema e pedir ajuda a ele, que acabei descobrindo que eu receberia uma delas.

A cada 40 segundos uma pessoa tira a própria vida no mundo. Uma delas pode estar bem próxima de você. Talvez seja uma das pessoas mais felizes que você conhece, não aparente ter problemas pessoais ou de relacionamento. Ela pode até estar passando por um tratamento em busca de melhoras. Pode ser seu professor, seu colega de trabalho, alguém que more no mesmo prédio em que você e cujo único cumprimento de vocês é um “bom dia” vez ou outra no elevador, pode ser seu melhor amigo e até mesmo algum familiar.

O suicídio não é divulgado na imprensa. A razão disto não é clara, mas um dos motivos talvez seja o fato de ser um ato individual, cujas motivações são bastante íntimas e particulares. Talvez alguns hoje o encarem como um ato de covardia ou até mesmo fracasso. Mas penso que tudo que estas pessoas precisam é de compreensão, ajuda e, principalmente, não ficarem sozinhas. Algumas delas irão demonstrar sinais de comportamento suicida que podem ser identificados por você.

Se esta pessoa não for próxima ou você não souber lidar com o assunto, entre em contato com o Centro de Valorização da Vida, pelo número 141 ou pela internet. Suicídio é coisa séria e precisa passar a ser considerado como tal. E, mais importante que isso, não faça piadas. As pessoas que o rodeiam podem ter diversos problemas dos quais você não sabe nada. E claro, se os problemas forem seus, não fique calado. Procure ajuda, ela pode vir de onde você menos espera.

  • Amélia e Robert são pessoas reais, bem como seus relatos. Os nomes foram modificados para preservar-lhes as identidades.

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Originally published at sobremundos.com.br on February 19, 2016.

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