Perfeição

Existe uma sombra que, enquanto sombra, nunca se descola de mim. Não sei dizer se é um medo ou uma corrente que carrego, mas essa sombra é uma constante na minha vida. É difícil falar quando ela surgiu, na minha lembrança ela sempre está lá.

Tenho que ser a melhor. E isso não significa ser a mais bonita, porque aspirar a beleza não é digno. Tenho que ser a mais inteligente, mas tenho que ser de alguma forma acessível. Tenho que ser a mais compreensível, mas não posso parecer boba. Tenho que ser a mais educada, mas não posso parecer esnobe. Tenho que ser a mais boazinha, mas não posso parecer lerda. Tenho que ser a mais agradável, mas não posso parecer intrometida. Tenho que ser a mais irrepreensível, mas não posso parecer convencida. Tenho que ser perfeita, mas não posso parecer que sei disso.

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Obviamente falhei miseravelmente. Tanto nos “tenho que” quanto nos “não posso”. Em nenhum momento esses comandos levaram em consideração coisas como ser feliz ou me divertir.

A perfeição é uma forma de dominação

A necessidade de crescer, alcançar um objetivo é legal. Mas a constante insatisfação, a sensação de que nunca vamos ser o suficiente, não. Com a premissa de que estamos exercitando a humildade, detonamos a autoestima. No final das contas, algumas pessoas se revoltam e ficam super orgulhosas e arrogantes. Outras não conseguem se impor e o equilíbrio acaba sendo um ponto quase mítico. Ser equilibrado é ser independente e isso não interessa a nenhum sistema.

O arrogante é também um dominado. Ele acha que sabe tudo, assim como eu estou aqui escrevendo, ele acha que está entendendo tudo, que tem razão. O coitadinho se deixa arrastar, mas veja, não sei se é digno de dó. Ser um pobre coitado é quase confortável. No geral as pessoas se identificam mais que este, acham que é humilde e merece mais consideração. Eu tenho minhas reservas desde quando li que é o dominado quem comanda o jogo de poder.

Em comum está a busca pela adequação, pela modelagem, o ser perfeito dentro de um padrão que é mostrado e ensinado. Nem que seja o perfeito idiota.

O que importa?

Estamos tão preocupados em corresponder a alguma expectativa que esquecemos de ser quem somos e isso é triste. Temos que corresponder em qualidade? Em beleza? Em rebeldia? Em parecer que não estamos correspondendo? De alguma forma estamos alimentando a engenhosa indústria da moda, a mídia, as redes sociais, comprando comida e bebida, coisas que não precisamos, só para corresponder.

Somos péssimos com os outros para nos encaixar num padrão. Para descontar a raiva e a frustração de não conseguir uma coisa que nem sabemos se queremos de verdade. Arrogantes ou prostrados, somos todos dominados.

Não fique com raiva de mim

Vou voltar a falar de mim, afinal foi assim que comecei esse pensamento. Na busca toda eu pensei que era uma pessoa e recentemente descobri que estava errada. Vejam só, sou mais tímida do que imaginava.

E provavelmente essa timidez é o que me dá esse tom mais reflexivo. Reparou que fico tentando balancear prós e contras? Ver dois lados? Fazer média? Sim, o medo do julgamento faz eu medir bastante os atos e palavras. A não ser quando os arroubos de sinceridade acontecem, e eles acontecem principalmente ao vivo.

Dificuldades

Se adequar ao meio exige a habilidade de falar uma coisa que você não concorda ou não sente e tecnicamente isso é uma mentira. Eu não sou muito boa nisso. Meus olhos, minha voz e toda minha expressão corporal me entregam.

Só que eu tenho um problema de filtro e às vezes acabo falando no impulso. Isso não combina com a timidez e me faz ter pensamentos conflitantes. Como conjugar as duas pessoas e quais delas sou eu: a tímida ou a impulsiva?

Aí que está, será que eu preciso conjugar alguma coisa? Vivemos em uma realidade tão complexa que talvez seja importante ter habilidades diversas, que beirem o contraditório. Chegou a hora de achar um jeito de fazer as pazes com minhas múltiplas facetas e viver perfeitamente desencanada de corresponder a um modelo.