Gênero / natureza / cultura

Material para aula de Filosofia ministrada no Cursinho Popular da Acepusp

Gabriela Perini
Jul 27, 2017 · 5 min read

*O texto abaixo é apenas uma parte, por isso seu fim abrupto. A segunda parte consiste na leitura e debate do texto A civilização dos pais, de Norbert Elias e dá continuidade à argumentação.*

A questão da natureza humana foi extensamente pensada no período do Iluminismo, especialmente pelos filósofos franceses. Exemplos mais conhecidos são Rousseau e Hobbes, com visões diametralmente opostas sobre qual seria o comportamento pré-social de um ser humano. Mais especificamente, qual seria o comportamento natural de um homem. A mulher representa um grande mistério para o pensamento tradicional europeu e masculino, como sintetizaria Freud com a pergunta “afinal, o que querem as mulheres?”.

Esse fato por si só é suficiente para ao menos levantar uma dúvida: é possível compreender, pensar ou conhecer um estado ou comportamento pré-social de todos os seres humanos? A maior dificuldade presente na proposta desse estado está na necessidade de uma resposta universal: não existem exceções. Oculta-se na busca pela natureza humana a suposição da substância, sobre a qual se depositam os valores e modificadores socioculturais. É o “resto”, após tudo o mais ser removido. É a nossa própria definição de “ser humano” e o que nos unifica enquanto tal. Ao longo da História da Filosofia, comprova-se: a busca pelos princípios unificadores é o papel da Metafísica. Consideremos os valores socio-culturais como os elementos “acidentais” de nosso ser e, portanto, aquilo que nos diferencia. Qual nossa unidade? Talvez haja essa substância inalterável, que nos define como humanos e nossos demais “seres” culturais só são possíveis em referência à nossa humanidade unificadora, aos moldes do pensamento Aristotélico. No século XX novas teorias metafísicas aparecem, como as de Russel, e propõem a existência universal das propriedades. Em analogia, cada um de nossos “acidentes” culturais, ou nossas propriedades, poderiam ser unificados. Como a cor vermelha de um lápis manifestaria uma existência vermelha, também compartilhada por um tomate, manifestaríamos a existência específica de algum comportamento, também compartilhada por outros humanos.

O fundamento das ciências biológicas e naturais também está na identificação e classificação dos elementos unificadores das diversas formas de vida e de fenômenos. Quando se tem algo universal, isto é, algo que funciona e existe da mesma maneira em todo local e em todo momento, há o elemento da previsão, como em toda ciência e, especialmente no conhecimento biológico, o elemento da função. Mesmo após a derrocada do pensamento de Lamarck e sua teoria do uso e desuso, a função deste ou daquele órgão, habilidade, comportamento, habitat etc. está condicionado a algum fim. Os bicos dos tentilhões, o formato do casco das tartarugas, tudo tem motivo e razão para existir exatamente do jeito que existe. Doente é o corpo incapaz de cumprir alguma das suas funções previstas pela ciência.

Ora, falássemos dos tentilhões, talvez fosse possível, diante de um novo formato de bico encontrado, teorizar com sucesso acerca das condições necessárias para a transformação do órgão. Mas, já aqui, a dificuldade é evidente: não se poderia fazer o processo contrário e determinar, dadas certas condições, qual o novo formato “adquirido”. Portanto, a universalidade em um contexto de infinitas variáveis é insustentável. O bico comprido e fino já é o resultado das transformações do ambiente. É o elemento dado e não se pode, da mesma forma, compreender o ambiente como resultado, pois é o próprio elemento em transformação. Da mesma forma, a cultura e sociedade — até a rede neural do cérebro está em constante transformação. Os filósofos iluministas já reconheciam os limites do pensamento diante da suposta natureza humana. No texto de Rousseau Discurso sobre a origem da desigualdade, a natureza é apenas recurso abstrato para outra investigação, a saber, os efeitos do agrupamento humano em comunidades. Investiga-se justamente o “oposto” do natural.

Hoje, o elemento — não só como componente, mas como constituinte primordial — pré-social é recurso para justificar e escusar ações, conforme a conveniência do poder vigente. Se o pré-social é a substância unificadora, é nele que se encontra o inalterável e absoluto; o elemento dado. Às mulheres cisgêneras, o impedimento de ocuparem espaços de ações e discussões supostamente racionais e precisas por conta de seus hormônios menstruais ou gestacionais. Aos homens cisgêneros, a permissividade no usufruto do poder através de violência por conta também de seus hormônios — paradoxalmente, ao mesmo tempo em que lhe permite a violência, permite-lhe a razão e a política –. A permissão ou recusa de participação dos espaços se dá a partir da função. Ora, a mulher cisgênera é uma reprodutora, o homem é um criador e uma potência. A repetição e manutenção — manutenção exige cuidado, tarefa executada por mulheres nas creches e enfermarias — versus a criatividade, a novidade e o progresso. A violência é incorporada na função de potência legisladora: quem pode, pode não só poder, mas também determinar o proibido. Essas são as características comportamentais dadas e inalteráveis, sobre as quais nos restaria somente lamentar caso elas nos desagrade.

Doente é o ser humano incapaz de cumprir sua função prevista pelo poder vigente, definido por alguém.

Incapazes de reproduzir, gays e lésbicas cisgêneros são doentes por discursos conservadores. Não há maior refúgio para justificar exclusão além do elemento pré-social. Este é o inalterável e inalcançável, senão pelo acidente da natureza, como os bicos dos tentilhões, ou pela ação divina. Mas a que serve o sexo? Qual sua função? Determinar a função é, necessariamente, determinar o limite do saudável e da doença, a segunda passível de correção. A boca pode ser um órgão sexual? Caso alguém se alimente, no decorrer de toda a vida, somente através de suplementos intravenosos, a boca ainda será um órgão destinado à alimentação? A capacidade humana de escolha e questionamento desafia a lógica matemática. Se o ambiente da natureza já proporciona uma infinidade de variações possíveis e, portanto, imprevisíveis, a razão humana multiplica o infinito. As pessoas transgêneras são daquelas não somente doentes, mas impossíveis. É a população desafiadora da própria existência enquanto substâncias, pois as transferem precisamente para o campo oposto; o acidente. Acidentes diversificadores, obliterantes epistemológicos na medida em que impedem qualquer exercício de união dos seres. Veja-se o árduo esforço em negar essas vidas, até mesmo dentro de diversos discursos supostamente progressistas e populares.

O sexo é entendido como processo reprodutório. A função do sexo é reproduzir e aqui são rejeitadas todas as pessoas que confundem os princípios aritméticos e binários da reprodução. Não somente o sexo para procriação é entendido como pré-social, também o é a constituição de uma família, espaço no qual se educam e protegem as crianças, supostamente puras e inocentes. Mas a história nos comprova a distorção dessa função: a infância e a família são invenções bem localizadas no tempo.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade