I Could Never Rescue You

Ele não consegue dormir direito e passa a noite vendo Sex And The City. Essa série o faz lembrar de sua infância e adolescência. Ele via sua mãe, sua avô, sua biza, a maioria das mulheres em sua volta, e se via naquelas 4 mulheres. Agora são 6:06 da manhã. Começou a abertura de um novo episódio. Ele vê Carrie Bradshaw se molhando em NY. Ele lembra de NY. Ele lembra do menino. Mesmo os sonhos dos dois sendo distantes eles se encontravam naquela cidade.
Logo ele pensa. “Será que Ele realizou esse sonho? Afinal Ele viajou pra fora e deve ter dado uma passada lá”. O rapaz já foi pego algumas vezes durante o fim do inverno com esse pensamento dentro de si. Logo em seguida ele sempre faz o mesmo ritual: entra no instagram. Escreve as primeiras letras do nome do falecido. Entra em sua conta, como se estivesse entrando na deep weeb e fugindo do FBI. Afinal é um caso sério, compreende? E por um instante, em cima de sua cama, emaranhado em seus lenções, com sua porta trancada e janelas fechadas, ele vê uma foto. BUM.
E lá estava o Jamie, ou a Kathy (depende muito da forma que a história é contada) na Times Square com um sorriso igual da Donatella. O orgulho e a felicidade nos olhos do garoto em seu quarto foram instantâneos. Ele havia conseguido realizar um dos seus maiores sonhos-pensou o miúdo em cima do seu edredom verde esmeralda. Pra ele isso era incrível, ver alguém que pensara que nunca iria realizar essa viagem, ou que por hora seria praticamente imaginável. No meio de gritaria. Luz. Arte. Amor. Ódio. Correria. NY.
Nesse momento, o garoto olhou para a série a sua frente. Viu a personagem da Sarah ainda em sua cena de abertura e pensou: eu não preciso dele. Eu não preciso do que eu criei dele. Eu preciso de mim. Só depende de mim para poder saborear o sol. A lua. A noite. O dia. O café da manhã que acompanha o resto do dia. Só depende de mim para me saborear.
O rapaz havia olhado em volta. Tomara o café que iria o acompanhar ao longo do dia. Deixou a luz entrar e seguiu uma manhã que envolveu as coisas mais clichês do mundo. Desde ir à academia, até dar uma volta na beira do mar e ver as horas passar no seu parque favorito. Viu o chafariz formar um arco-íris em sua frente. Viu as coisas que ele mais ama e vai ver muito mais no decorrer do dia. Agora são 13:14. O garoto sorri pro dia que teve. Ele não tem um dia assim há muito tempo. A maioria deles envolve levantar da cama às 16 da tarde. Comer mal. Não ver um futuro. E ele não sabe lidar com isso pois nunca ficou assim. Pela primeira vez ele não havia visto saída. Não havia visto vida. Não queria ver nada.
Hoje ele viu a vida. Ele participou dela. Ele amou ela. Agora, com clareza, é visto como a terceirização da felicidade é um erro humano. O maior erro dele foi ter procurado se encaixar em outros, enquanto ele já é completo.
Assim, o menino se despede do Nosferatu. Finalmente ele entendeu como tudo ocorreu. Finalmente ele se entendeu nessa questão.
Tchau, até amanhã.
