Partículas de brilho

Bate duas vezes na porta de madeira entalhada, espia pela fresta e entra na sala devagar. Bancos compridos e escuros, armários altos e pesados, cadeiras de palhinha com o assento frouxo e desbotado. No fim do longo vão de azulejos hidráulicos, uma penteadeira futurista de salão de beleza. Lúcia se olha no espelho, o perfume enjoado misturado ao cheiro da igreja antiga.

— Tá linda, Lu.
 — É.
 — Tu pediu pra me chamarem? Tá nervosa?
 — Preciso conversar.
 — Tua mãe tá doida pra te ver.
 — Não tô com paciência.
 — E Nininha?

Lúcia balança a cabeça em negativa, a linha vermelha dos olhos inchados contrastando com o delineador preto. Afasta os pincéis caros da mesa e pega o celular com capinha de strass, soprando o vidro para espalhar o pó de maquiagem acumulado.

— Olha.
 — Quem mandou?
 — Tu não tá nem espantada.
 — Quem mandou, Lu?
 — Não sei. Liguei de volta e deu caixa postal.
 — Que piada.
 — Recebi hoje de manhã.
 — Gente desocupada.
 — É verdade?
 — Acho que não, Lúcia. Não sei.
 — Tu não tá nem espantada.
 — Não leva isso a sério.
 — Pedro nunca te contou?
 — Por que Pedro ia me contar uma história dessas?
 — Ele não esconde nada de tu.
 — Mais um motivo pra tu não acreditar em merda.

Lúcia ergue as sobrancelhas loiras, geométricas e preenchidas a lápis. Ela desliza o dedo pela tela ainda suja de maquiagem, deixando um rastro de partículas de brilho, e mostra a continuação da mensagem.

— Tem foto do Subaru de vocês. O azul. Ricardo ligou pro Pedro, Isa. De madrugada. E ele foi lá negociar com a polícia. Tá dizendo aqui.
 — Isso é fofoca, Lúcia. Teu noivo tá lá fora esperando. Do jeito que tu queria. Não tá vendo que isso é coisa de gente invejosa?
 — As gêmeas?
 — As pessoas te conhecem, Lúcia. É fácil te atingir.
 — Não foram elas.
 — Pode ter sido qualquer idiota.
 — Idiota sou eu.
 — Tá sendo agora.
 — Tu é minha madrinha.
 — Já disse que não sei de nada.
 — Te convidei na maior consideração e tu me vira as costas?
 — Sou madrinha pelo lado de Ricardo, Lúcia. Só tô aqui por causa de Pedro. Disso tu sabe, não sabe?
 — Mas o casamento é meu também!
 — Não grita, Lúcia.
 — Tu é uma falsa mesmo. Sei que tu fala de mim pelas costas!
 — Não grita comigo.
 — Falsa!
 — Mimada.
 — Não sou mimada!
 — É pra caralho.
 — Tu nunca gostou de mim, Isa.
 — Eu gosto, Lúcia. Quero que tu seja feliz.
 — Mas tu ri de mim. De tudo que eu faço.
 — Não era pra tu ter lido meu WhatsApp.
 — Por que tu acha meu blog fútil?
 — Acho bobo. Mas quero que tu seja feliz, de verdade.
 — Então me conta, Isa.
 — Contar o quê?

A resposta vem em um redemoinho de fúria, o celular atirado no espelho, os pedrinhas de strass se soltando e tilintando no piso. Com uma tesoura de unha enfiada entre os dedos como duas alianças, Lúcia ameaça destruir o vestido. Os golpes frouxos em direção ao tecido desviados por instinto. Ela percebe que não tem coragem e começa a pisar forte no chão, sem sair do lugar, não pode sujar a cauda. No auge da encenação, atira as sandálias em cima do banco de duzentos anos.

— Não vou mais casar!
 — Tá certo.
 — Vou dizer que tu e Ricardo tem um caso. Vou fuder com a tua vida.
 — Combinado.
 — E vou dar pro teu marido. Vou dar pra Pedro.
 — Deixa de ser burra, Lúcia.
 — Vou dar bem muito pra ele.
 — Cala a boca e calça teu sapato que tá na hora.

Vai até ela e a abraça forte.

— A menina tinha 12 anos, Isa.
 — Tá me ouvindo, Lúcia? Calça teu sapato. — Sussurra no ouvido.

Lúcia senta na cadeira do maquiador, fecha os olhos e deixar Isabela limpar o rímel escorrido, refazer o traçado dos olhos. Fica quieta para não borrar. Fala pausadamente, de olhos fechados, somente quando a outra se vira para colocar mais sombra no pincel.

— Pegou na rua. Acharam ele com a esmolé perto do açude de Apipucos. Teu marido foi lá resolver. Inventou uma mentira e deu dinheiro pra todo mundo. Deve ter ficado puto. Ele ficou puto, Isa?
 — Não começa.
 — Vocês riem de mim por causa dessa história?
 — Eu nunca ia rir de uma coisa assim.
 — Tu riu do meu convite.
 — Achei brega.
 — Por quê?
 — Eu nunca ia rir de uma coisa assim, tá bom?
 — Ele é um monstro. Tu sempre soube, né?
 — Sempre achei ele babaca.
 — Pedro também acha?
 — Eles são amigos.
 — Mas acha ele babaca.
 — Pedro gosta de Ricardo. Vai cuidar dele.
 — Na época do colégio, ele gostava. Agora não gosta mais.
 — Talvez.

A porta pesada se abre e a cerimonialista entra apressada, vestido preto e pérolas falsas, as ordens tolas combinando com o bico descascado do sapato. Isabela dá um beijo na testa de Lúcia. Queria ter aquela pele de boneca. A noiva mostra pela última vez a mensagem na tela rachada do celular.

— Tu não tá nem espantada, Isa.
 — Tu também não tá, Lúcia.

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