sobre ainda não ter engolido que acabou o colégio

ahh, que bizarro.

foram anos de aulas, meses de cobrança, dias de estudos. o colégio realmente serviu como uma segunda casa para mim, em especial porque nunca houve grandes mudanças de habitat, somente de salas, de anos letivos, de amigos e de professores.

e foi dentro daquele grande cubículo recoberto de gênios escondidos e professores apaixonados que descobri gente, descobri coisas, descobri sonhos. além disso, descobri artimanhas sobre como funciona o personagem principal da minha história de vida — mesmo que, para mim, ainda existam muitos segredos por trás da palavra auto-conhecimento.

engraçado é que, em uma sociedade ideal, o papel do colégio nada mas se refere do que à educação — aquela cujo objetivo é organizar o mundo de maneira harmônica, fazer o homem prosseguir na sua busca pelo desconhecido.

mas parece que a educação sofre adaptações de acordo com a sociedade em que se enraíza, como, por exemplo, no próprio brasil.

essa “educação adaptada” que me refiro nada mas é do que a educação centralizada no vestibular. a educação que festeja a escolha objetiva entre as letras “a” e “e”. a educação que gira o mercado educacional e que beneficia a elite sobre qualquer outra coisa, visto que uma “boa educação” anda de mãos dadas com belo investimento. afinal, a vaga do vestibular na universidade federal não é exatamente gratuita.

todavia, independente desse teórico papel do colégio, o que mais embrulha meu estômago sobre abandonar essa etapa tão pura e ingênua e colorida de minha vida que foi a vida colegial é que, dentro da palavra “estudante”, há um dicionário de subjetividade — um dicionário que, sem dúvidas, se eleva sobre o dicionário acadêmico.

a respeito do dicionário de subjetividade se elevar sobre o acadêmico, é necessário que seja compreendido as entrelinhas do parágrafo acima.

ou, resumidamente em outras palavras: mau estudante é aquele que se prende à questão objetiva e que de priva das questões dissertativas da vida.

antes de comentários, é claro: não existe a possibilidade de um estudante não passar por fases e descobertas dentro do colégio. etapas de hormônios à flor da pele são biologicamente inevitáveis. mas, aquele estudante que deixa por completo de escutar a voz aveludada do instinto natural de adolescente que quer o desconhecido, que quer ir à festinha sexta-feira, que quer conhecer gente diferente, que quer descobrir o mundo atrás do muro do pátio, que quer experimentar o uniforme da vida — e não o do colégio — , me desculpe: sua inteligência não é melhor do que a do aluno que, mesmo tirando notas mais baixas que as suas, gosta de sentir o gostinho do desconhecido e do que não está logo abaixo do nariz.

agora, fugindo de rótulos, parabéns àquele estudante que sabe se equilibrar. acho que o colégio serve, no final de tudo, exatamente para isso: aprender a se equilibrar entre o dever e o prazer, o óbvio e o secreto.

se há interesse por uma matéria, se há paixão, acho lindo, de verdade. se é do desejo do aluno e se coincide com sua felicidade plena o estudo daquilo, parabéns, acho bem bacana mesmo. a ciência é linda, ela explica o mundo e nos torna mais humildes, visto que o conhecimento humano é, quanto mais estudando, mais compreendido como minúsculo.

só que, por favor, não se deixe enganar que o papel do estudante é vidrado somente na deglutição do que está escrito no quadro da sala de aula.

o estudante tem que aprender, além das curiosidades do mundo teórico, que o mundo tem engrenagens que só são desvendadas quando acionadas com curiosidade e perspicácia.

pessoas, harmonia, sentimentos, relações, limites, experiências, histórias, segredos.

o colégio quer que aprendamos que, sim, é bom/ideal passar no vestibular — isso para o estudante que quer ter uma vida em sociedade normal seguindo seu sonho acadêmico, aqueles que desejam não seguir esse caminho (clichê) também merecem todo o respeito sobre sua liberdade de escolha. mas, acima do que se diz sobre esse ciclo interminável de ingresso na faculdade pós-encerramento colégio, que o estudante que vá seguir esse caminho saiba que ele não é somente seus estudos. que ele saiba que as engrenagens da vida estão lá, estão aqui, estão ali, prontas para ajudá-lo a ser uma pessoa.

portanto, que estude. e que viva. fiz tudo isso e sou muito feliz. não sou uma guru da minha vida, não descobri todas engrenagens. não sou um gênio e nem faço questão de ser. porém criei afinidade com a voz aveludada do desconhecido e com o quadro da sala de aula. aprendi a pensar na minha liberdade (sem náuseas). aprendi a estudar sem muitos exageros. aprendi a me dedicar. aprendi me apaixonar por algumas matérias. e por algumas pessoas.

enfim, agora digo tchau para o colégio. saio dele com a cabeça erguida, mesmo que pesada, e feliz para continuar meu trajeto.

afinal, quem sabe das engrenagens que ainda vou descobrir por aí?