A reflexão sobre o patriarcado em OConto da Princesa Kaguya.

Me ensinem como sentir
Se eu ouvir que você anseia por mim,
Eu retornarei para você.”

O Studio Ghibli é um famoso estúdio de animação japonês fundado em 1985 por Isao Takahata e Hayao Miyazaki. Desde sua fundação, este vem ganhando reconhecimento por variadas razões, seja por seus roteiros bem elaborados ou por sua animação memorável, mas um dos maiores motivos pelos quais o estúdio tornou-se famoso é a construção de seus papéis femininos, representando-as em grande parte de seus filmes através de protagonistas femininas talentosas, determinadas e que quebram o “dever-ser” feminino, invertendo, assim, os papéis que são “naturalmente colocado às mulheres na indústria cinematográfica.

Nessa perspectiva, O Conto da Princesa Kaguya foi o último longa produzido por Isao Takahata antes de seu triste falecimento em 2018. O filme, indicado ao Oscar de Melhor Animação no ano de 2015, é uma adaptação de uma fábula clássica da cultura japonesa, conhecida como “O Conto do Cortador de Bambu”, mas, na verdade, com algumas diferenças importantes quanto à história original, devido a vontade do diretor em criar um universo de crítica à cultura patriarcal, ainda muito observada no Japão até hoje.

A animação conta a história de um simples cortador de bambu que morava em uma pequena casinha no interior do Japão e que, em um belo dia, depara-se com uma garota muito pequena, dentro de um bambu, que destacava-se dos demais por exibir um brilho excepcional. O homem, acreditando ser um ser divino, leva a garota para sua casa e ele e sua esposa decidem criá-la como se fosse sua filha.

A menina, em seguida, sai de sua forma inicial e transforma-se na forma de um bebê humano, entretanto, fica aparente que ela não é um ser humano comum, pois possuía algum tipo de traço místico que a fazia crescer mais rapidamente do que as outras crianças. O pai da menina, encantado com a sua beleza e com suas habilidades, começa a chamá-la de “princesa”, enquanto as outras crianças do vilarejo lhe dão o apelido de pequeno bambu.

Ela faz amizade com as outras crianças do vilarejo e saem pela floresta, divertindo-se colhendo frutos e observando o lugar. A garota é manifestadamente feliz ali, em contato com a natureza e com seus amigos, sempre sorrindo e disposta, inclusive possuindo uma liberdade bastante evidenciada, como em cenas em que ela fica nua com seus amigos para que tomem banho no rio, e também quando seu pai pergunta a sua mãe se estaria certo ela estar sempre com aqueles meninos e a mãe afirma que ela está segura com esses (manifestando de uma maneira inicial e sucinta a crítica ao patriarcalismo proposta por Tahakata, de questionar o porquê dela não poder estar próxima, ser amiga de outros meninos e não poder ser livre com estes).

Todavia, seu pai, ao voltar para o bambu onde a encontrou, encontra uma grande quantidade de ouro e de tecidos caros lá dentro, o que considera como sinais dos deuses de que a menina deveria levar uma vida nobre e luxuosa na capital. Contra a vontade de sua mulher, e da própria garota, ele faz com que a família se mude para a capital, na qual, com o dinheiro que arranjou dentro do bambu, compra uma grande mansão, e passa a tratar sua filha como uma verdadeira princesa, arrumando uma professora que a ensine como se comportar como uma nobre e de certo modo como uma “mulher respeitável” naquela sociedade.

A menina, ao contrário de quando vivia no campo, não se sente feliz ali, sentindo-se a todo momento presa, rodeada de falsidades e cobranças absurdas, desejando poder voltar para o campo, onde realmente era feliz, e podia ser livre. Mas seu pai não a compreende, e acredita fielmente que o caminho correto a se seguir era o caminho da nobreza e do luxo. Com essa narrativa é evidente como o diretor questiona as situações que são impostas às mulheres na sociedade japonesa e como um todo.

Como um grande destaque, tem-se a Senhorita Sagami, a professora de etiqueta contratada para ensinar à Kaguya como ser uma menina estimada naquele espaço. Se antes seus dias eram repletos de liberdade, amizades e aventuras no campo, agora eles seriam ocupados por rigorosas regras de etiqueta e costumes da nobreza. Como uma verdadeira princesa, como seu pai gostaria que fosse, esta não poderia se divertir, sair nadando por aí, rir ou brincar. A todo momento era alertada sobre se comportar como uma verdadeira dama, sobre como damas devem ser graciosas a todo momento, que somente se levantam e falam com outras pessoas em raras ocasiões. Uma princesa não abre a boca ou muito menos sorri, como atenta a Senhorita Sagami. As mulheres estariam ali como meros enfeites dos espaços, não estando autorizadas a demonstrarem sua personalidade e identidade. Na verdade ao que parece, as mulheres não eram permitidas de possuírem uma identidade própria e a proferirem opiniões.

Precisaria usar roupas específicas, raspar suas sobrancelhas, pintar seus dentes e se reservar dentro do Palácio, de modo que sua beleza permaneça um mistério (o que acabou por lembrar um pouco o uso da burca para as mulheres orientais, como forma de explicitar a necessidade de esconder seu corpo e como se estes fossem propriedade apenas de seus pais e seus maridos).

Na sociedade japonesa atual esse costume sobre como as mulheres devem portar-se não é seguido exatamente como antes, muito embora o modo como o sexo feminino é tratado não tenha mudado muito. Um exemplo de como ainda há o dever-ser feminino é a pressão sobre a mulher para que ela se case e constitua família, em que o casamento é uma necessidade e a felicidade da vida de uma mulher em si.

No filme, um reflexo dessa estrutura é que, para a professora Sagami, a felicidade de Kaguya, com um daqueles ricos homens que procuram casar com ela está garantida, basta apenas escolher um. É quase que natural, é uma escolha muito simples. A Senhorita Sagami não compreende, por exemplo, o fato de Kaguya não sentir vontade de se casar, argumentando que a maior felicidade que uma mulher poderia ter seria justamente o casamento. Quando o Imperador pede para que Kaguya se torne uma das damas da corte seu pai explode de felicidade alegando que não há uma felicidade maior para uma mulher do que se tornar a esposa e a referência de um homem. Inclusive, durante a narrativa de ser uma dama da corte, o Imperador atesta que a felicidade de Kaguya está em ser dele.

E apesar de toda essa pressão em tornar a princesa uma referência familiar, casada e nobre, Kaguya a todo momento se rebela sobre as convenções que são impostas à ela. Ela não quer retirar suas sobrancelhas, zomba dos homens que desejam que ela se torne suas esposas, recusa o pedido de casamento do Imperador alegando que nunca será sua mulher, afirmando que sentiu raiva porque tinha que pertencer a alguém, quando na verdade tudo o que ela queria era ser livre.

Ela menciona: “tudo o que eu faço é ficar sentada”, entretanto, o meio tóxico e abusivo com mulheres acaba suprimindo esses traços mais rebeldes e ativos que Kaguya possuía, fazendo com que ao mesmo tempo que é questionadora dos papéis que são impostos a ela, demonstrando resistência e luta, ela também passa a se tornar passiva quanto às regras. Ao passo que responde a essas exigências com inércia, a protagonista passa pouco a pouco a demonstrar cada vez mais tristeza, fazendo com que o expectador pense que, na verdade, esse traço incorpora-se à própria personalidade dela. Convenceu-se, pouco a pouco, de que alguém na sua condição e posição pouco podia fazer para ser ouvida. Inclusive situação esta que se pode até mesmo refletir sobre como o patriarcado nos adoece e nos deixa depressivas (relembrando até mesmo o conto O papel de parede amarelo, da Charlotte Perkins Gillman).

Também é no consentimento da mãe que podemos observar a força desta tradição envolvendo a limitação feminina. Ainda que esta não sonhe em atingir um status grandioso naquela sociedade, nem mesmo obter riqueza material através de sua filha, a mãe passa a ser passiva em relação a decisão de seu marido sobre mudar-se para a cidade grande, sobre a menina se casar ou ter que se comportar como alguém de uma classe nobre. Podemos ver, portanto, que as decisões do pai parecem corresponder à “palavra final” dentro da casa, cabendo a esposa e a filha aceitarem e viverem conforme as condições.

Com seus traços extraordinários, que mais aparentam fazer parte de uma obra de arte, Takahata, sutilmente, cheio de poesia e de detalhes para que o expectador possa compreender ainda mais sobre aquele universo da sociedade japonesa, traça uma crítica silenciosa sobre como as mulheres são tratadas na nossa sociedade e principalmente no Japão, tornando O Conto da Princesa Kaguya como um dos filmes de todo o estúdio que mais se propõe a discutir sobre o papel da mulher em nossa sociedade, mesmo em comparação com outros clássicos do estúdio como A Viagem de Chihiro e a Princesa Mononoke.

Mesmo que a protagonista não seja, em comparação a outros grandes filmes em que há mulheres protagonistas como um destaque, uma explícita mulher rebelde e forte, Takahata constrói Kaguya como uma vítima da sociedade patriarcal, que é alvo de todas as imposições do dever-ser dos papéis femininos, e por mais que esta não seja uma Joana D’Arc, tem seus momentos, mesmo que discretos, de refletir sobre o meio que vive, questionar as imposições e ser forte de sua própria maneira. A forma como a história leva o expectador a refletir sobre como as mulheres sentem-se enclausuradas nesses papéis sociais é quase que revolucionário no meio das animações, até mesmo na indústria cinematográfica como um todo.

Kaguya, apesar de que, por um momento, tenha se convencido de que aceitar às imposições da sociedade sobre si, a personagem é um reflexo de como as mulheres “donas de casa” também possuem sua própria força. Geralmente o movimento feminista homenageia (e com razão) mulheres que quebraram diretamente os padrões, mas estas que estão dentro do modelo “bela, recatada e do lar”, por vezes, também demonstram sua própria resistência, seu próprio modelo de força, não vamos esquecer isso.

E o fim da história(que espero que o texto incite vocês a assistirem) faz com que eu me lembre de um poema da Maya Angelou que diz:

“Acima de um passado que está enraizado na dor
Eu me levanto
Eu sou um oceano negro, vasto e irriquieto,
Indo e vindo contra as marés, eu me levanto.
Deixando para trás noites de terror e medo
Eu me levanto”


Espero que o texto tenha estimulado vocês a verem essa obra prima, definitivamente recomendo que todo mundo assista. Confesso que quando assisti pela primeira vez levei bastante tempo para refletir sobre esses detalhes do filme, e quanto mais eu penso sobre mais eu gosto. O Isao Takahata era um verdadeiro artista e que fará muita falta! E, caso tenha gostado do texto, por favor clica ali nos aplausos quantas vezes quiser, e também me indiquem outros filmes que tenham uma reflexão parecida. ❤

Gabriela Holanda Bessa de Lima.

Written by

Estudante de direito, apaixonada por cinema (ainda mais se feito por mulheres) e viciada em fazer listas inúteis.

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