Para todos os garotos que eu já (achei) que amei
Esse filme. Esse filme novo da Netflix, “Para todos os garotos que já amei” é um embuste maior do que os que ando conhecendo ultimamente. Tu acha que vai ser aquela diversão inocente do domingo a tarde, “filmezinho adolescente”, né?
Achou errado, minha consagrada!
Esse filme é uma revisitação de todos a história traumática, digo amorosa, da tua vida. Primeiro ele te traz aquela nostalgia e inocência de como a gente enxergava os primeiros amores. Lembra quando a gente achava que o pra sempre realmente nunca acabava? Ou que aquele guri descolado era o grande amor da tua vida e nada, jamais iria fazer tu gostar de outra pessoa? É, dá saudade. Não do pra sempre e nem do guri, mas dessa pureza com a qual a gente olhava para as coisas e, principalmente, acreditava nelas. Pensa: um coração novinho em folha! Não esse ser trincado, remendado e reciclado que tu tem hoje dentro do peito, que às vezes desconfia até da própria sombra.
E, me perdoem os adolescentes de hoje — que continuam sofrendo como ontem, aliás — mas não há nada tão gostoso e intenso e verdadeiro e totalmente infundado quanto o sentimento adolescente. Tudo é elevado a uma dimensão muito maior do que é realmente, talvez por estar sendo experenciado pela primeira vez. E acreditem em mim: nunca mais é igual. Ironicamente, isso me lembra relatos de usuários de drogas que já entrevistei. Muitos admitem que, em todas as vezes que usam a substância, estão sempre buscando aquele “barato”da primeira vez que usaram. Mas nunca mais é igual. Me pergunto se o nosso cérebro (e o nosso desejo) nos engana também assim com outras sensações. Beijo, sexo, orgasmo. As vezes os primeiros nunca são especiais, mas ficam marcados justamente por serem os pioneiros de um mundo totalmente novo a ser explorado.
Tá, mas divaguei aqui e quase esqueci o bendito filme. Ele fala de uma menina que sempre escrevia cartas para as pessoas pelas quais ela se apaixonava. Nas cartas ela dizia tudo o que tinha vontade de dizer pessoalmente, mas não possuía a coragem necessária. Ela se derramava por inteiro no que escrevia, mas nunca entregava. Achei sensacional a fala em que ela diz que gosta de escrever para visualizar a dimensão do que está sentindo e como forma de finalizar algo também.
*****Alerta de spoiler*****
Um belo dia, as cartas são enviadas para os seus destinatários, alguns com quem ela não tinha contato em anos. Não vou entrar em detalhes sobre os garotos em si, mas sobre a reação da protagonista frente a isso. Ela se desespera em saber que aqueles garotos podem vir a tomar conhecimento do que ela sentiu por eles e tenta tomar algumas medidas para minimizar os danos. Claro, como a maioria das comédias românticas, o tiro sai pela culatra e no fim, algo acaba dando certo na sua turbulenta situação amorosa. Mas tem um diálogo em particular entre dois adolescentes que faz qualquer adulto de 30 anos tremer na base e ter um mini flashback desconcertante. Quando eles falam sobre a atitude de escrever, mas não entregar as cartas para evitar que a relação possa se tornar real de fato, pois a realidade pode machucar.
Porque no mundo real as pessoas se decepcionam, vão embora, decepcionam os outros, são confusas e podem até ser cruéis. Aí aquele beijo que antes te viciava, pode deixar um gosto amargo na boca. A conversa que antes fluía naturalmente, pode enfrentar silêncios deconfortáveis. O tempo, que antes corria depressa relógio, pode se arrastar através das horas.
E aí como faz? Todo aquele balão gigante de sentimentos que se esvaziou — de uma hora pra outra ou aos pouquinhos, tanto faz. A gente nunca está preparado, nem quando somos nós que esvaziamos. Principalmente quando somos nós. Porque além da tristeza do fim, ainda vem junto com a culpa de magoar alguém que amamos tanto por não sentir mais nada. E quanto o balão murcha naturalmente, porque o tempo passa e o balão murcha, são duas tristezas e duas culpas para lidar. Como faz?
Parecem muitas variáveis, mas prometo que vai fazer sentido. A grande pulga que esse filme plantou atrás da minha orelha foi justamente sobre o quanto a gente vive de verdade as paixões e as relações, sem viver no fantástico mundo da idealização. Quantas vezes a gente teme a realidade e não se entrega, não se mostra ou se recusa a enxergar o outro? Porque, por mais que aí exista uma relação acontecendo fisicamente, o nível de entrega que a gente atribui a ela é o diferencial entre viver algo verdadeiramente real ou um simulacro virtual do que poderia ser. É a decisão entre a pílula vermelha e a azul que a gente faz sempre que resolve estabelecer um vínculo. Uma te dá uma sensação de saciedade deliciosa, mas não tem gosto de nada. A outra, tem o sabor mais delicioso do mundo, mas pode te fazer sangrar. Qual tu escolhe?
Enquanto eu assistia esse filme, e seus diálogos em meio a tramas adolescentes aparentemente simplórias, me dei conta de que talvez eu não tenha enviado todas as cartas que achei que havia enviado. É como se houvesse escrito, arrumado dentro do envelope, endereçafo ao remetente, mas tivesse esquecido, sei lá, de selar a carta. E eu, distraída tentando relembrar cada palavra do que estava escrito, tivesse depositado na caixa do correio e acreditado que ela chegaria ao seu destino. Mas na verdade, nunca chegou.
(…) when everything feels like the movies, yeah you bleed just to know you’re alive.
