Equilíbrio

I
Estava em sala de aula, com mais uma lição pacata e um único desejo: sair dali. Mas o tempo não passava. O sono me dominava e as letras pareciam flutuar, saindo do papel, mas o tempo não passava. O calor da sala deixava tudo mais monótono e lento, mas o tempo não passava. O ponteiro maior do relógio se arrastava como se fosse o menor e o tempo andava cada vez mais devagar. Tão devagar que parou.
Sim, o tempo parou. Olhei em volta e percebi que tudo em volta estava
embaçado; minha cabeça rodava. Mas eu via o mundo parado, o tempo congelara. Tentei me levantar, mesmo com a tontura. Olhei à volta e me descobri livre. Saí escola afora, fugindo da minha prisão.
O calor insuportável me dava sede. Sede? Sim… Água, era isso que saciava a sede. Eu precisava disso. Perto da escola havia uma lanchonete. Com o tempo parado, não daria para dizer que aquilo era roubo. E, mesmo que fosse, um caso de emergência dispensava a lei.
No momento em que o líquido tocou meus lábios, o mal-estar passou; a visão ficou nítida; a respiração voltou ao normal. Agora, eu realmente estava livre. Tinha o Mundo todo para mim. Afinal, o tempo parara. Quando ou se ele voltaria a correr, eu não sabia. Só sabia que a liberdade agora era plena, de tudo e de todos.
Divagava em meio a esses pensamentos quando uma pedra caiu do céu. Olhei para cima e vi um prédio de cinco andares ao lado da lanchonete desmoronando. Um barulho magnífico ecoava, o único som no planeta inteiro. O que era muito estranho, pois o tempo parara. Não havia vento, ruídos, um movimento sequer. Quem ou o quê poderia ter ocasionado a queda do edifício?
Enquanto o espetáculo dessa destruição continuava, eu tratei de me afastar dali, com pressa. Mas não tinha medo e, curiosamente, pensava friamente e sem pânico. Inclusive, me fascinava com a desestruturação do prédio, agora longe.
Sentei-me num ponto de ônibus e continuei pensando na razão da queda do edifício. Tudo levava a crer que o tempo parara, mas algo ainda se movia. Afinal, eu permanecia em movimento, consciente, e não seria estranho se outro ser estivesse caminhando pelas ruas da cidade.
Enquanto, com os olhos fechados, refletia sobre o caso, deu-se um estampido e outra pedra caiu do céu. Quando me levantei, sobressaltado, vi que a igreja ao lado também se desfazia de modo mais espetacular ainda. Calmamente, a passos firmes, escapei do local. Observando ao longe, ainda pude ver as duas torres caindo, se estilhaçando no chão. A partir daí, não houve interrupção. Cada construção da cidade começou a se desfazer de repente, por mais resistente que pudesse parecer. Praticamente sem intervalo, eu fugia com calma e sem pânico, contemplando a imagem apocalítica. Apocalítica…
Pois não seria aquele o fim do Mundo? Será que, após todos esses anos, havia realmente uma divindade suprema que decidira acabar com a Vida? Em meio ao cenário do que parecia ser o Fim, uma explosão de proporções absurdas abriu uma cratera na parte alta cidade, e lava fervente irrompeu numa velocidade inacreditável. Uma nuvem de fumaça se alastrou por toda a região após o som estilhaçar os vidros das casas que ainda resistiam, e não se dissipou. Logo, me vi mergulhado em uma névoa onde só se ouvia a cidade caindo, as construções desmoronando, as ruas pegando fogo…
Ao longe, porém, e bem ao longe, algo se formava em meio à fumaça. Uma silhueta indefinida saía da névoa… Sim, era um humano. Eu não estava sozinho.
II
O estudo nunca me agradou. Seja na escola ou em casa, estudar sempre foi uma pena dolorosa para mim. Por isso, naquela sala de aula, tendo a tarefa árdua de pensar (ou lembrar) das informações contidas em algum lugar do meu cérebro e aplicá-las numa prova, eu desejava apenas fugir. E, como se atendesse às minhas preces, o tempo parou.
Todos estavam petrificados, estátuas; não havia som algum, todo o barulho havia parado com o tempo, pois não há som sem movimento, nem movimento sem tempo. Mas eu me movia, fazia sons e possuía consciência. Será que os outros, embora petrificados, conservavam a capacidade de pensar? Olhavam, viam? Até que ponto o tempo parara?
Eu não queria saber. Apenas percebi que tivera minhas preces atendidas e fugi da escola, da sala de aula, da prova, da minha pena dolorosa à qual os outros chamavam estudo.
Subitamente, enquanto caminhava pelas ruas ao redor da escola, senti um pingo d’água cair, roçando em minha mão. Não demorou muito e estava chovendo, o tempo se transformara. O calor insuportável dera lugar a uma tempestade de raios e trovões, aquele fenômeno originado por aquele processo que aprendemos na minha prisão, chamada por outros de escola, o ciclo interminável do agá dois ó, a monotonia repetitiva, que causava aquela chuva de proporções absurdas.
Afinal, até onde o tempo parara? O tempo, aquele com relação à meteorologia, não se interrompera junto com o outro tempo, o relativo às horas. Eu apenas corria, em pânico. Sempre tivera medo de tempestades. Quando criança, tinha pesadelos em que me encontrava num barco, em alto-mar, as ondas me engolindo, a chuva embaçando minha visão, o bote destroçado, as águas se misturando, unindo forças para me derrubar. Quando estava prestes a morrer, sufocado em meio aos líquidos e ao sal, à ex-nuvem e à madeira, despertava suando frio.
Eu agora estava numa praça. Então, o inacreditável começou. Como nos
desenhos animados, num canteiro regado pela chuva, um broto começou a sair. Sim, eu vi o broto sair. Inicialmente devagar, ele logo foi ganhando força e se transformou numa árvore, o tronco grosso, os imensos galhos despontando como braços que tentam alcançar a água da chuva. Água que continuava regando e fazia as folhas, dedos dos braços-galhos, nascerem e florescerem. E assim a árvore terminou de crescer.
Eu apenas corri. O sobrenatural ocorrera, embora já viesse acontecendo desde que meu relógio parara de andar. Como se seguissem o exemplo de sua irmã, outras plantas que logo viraram árvores floresceram ao longo da praça. Ao longo da praça? Não, eu sentia o Mundo crescendo, aquele verde despertando por toda a cidade, todo o país, todo o planeta…
Aos olhos do leitor, isso talvez pareça um espetáculo. Mas, acredite, não era nada maravilhoso ver aquilo tudo crescendo. Pois, à minha visão, as árvores não estavam florescendo, mas invadindo a Terra, como gigantes despertando de um sono profundo para dominar-nos; ou criaturas mutantes, monstros mitológicos destruindo tudo pelo caminho para acabar com o globo terrestre.
Não demorou muito e não era só a natureza que crescia numa velocidade fantástica, mas novas construções e artifícios supostamente humanos surgiam como que feitos por mãos invisíveis. Rapidamente, uma força sobrenatural terraplanava um terreno e construía vigas e canos, em questão de segundos sustentando uma casa, um prédio, um arranha-céu…
Subitamente, houve um ruído seguido por tremores na parte alta da cidade. Por alguns segundos, tudo parou de crescer, como que esperando o que viria a seguir. Então, de modo espetacular, uma árvore de proporções absurdas, mais alta e mais grossa que qualquer outra, brotou do chão ao longe, irrompendo em direção ao céu, como uma erupção vulcânica que rasga a crosta terrestre e corta o ar. Com medo, em desespero, saí correndo em meio à mata e ao concreto daquela cidade. Corri para o nada, afastando folhas de samambaias que cortavam meu caminho, tossindo com a poeira e a cal das construções “humanas”. Sem esperança e em pânico, parei. Não sabia aonde estava. Só via folhas à minha volta.
Ao longe, porém, escondida em meio àquelas sombras, uma silhueta mal-definida podia ser vista. Sim, era um humano. Eu não estava sozinha.
III
Naquele momento, o Mundo se acabava de modo maravilhoso para o homem. Para a mulher, este se erguia assustadoramente. Então, ela surgiu em meio à neblina e ele irrompeu por entre as árvores.
Os dois se olharam, suas vistas cruzando o ar, cada um em sua realidade: o espetáculo do apocalipse e a desgraça da construção. Porém, para ambos, a ideia de ter outro indivíduo da espécie humana além de si que não fora congelado pelo tempo era um grande alívio. E, sem dizer uma palavra, eles estenderam as mãos um para o outro e, unidos, fecharam os olhos.
No momento em que aquelas duas pessoas com visões opostas sobre o mundo se tocaram, o tempo voltou a correr. O positivo se uniu ao negativo, o branco ao preto e mais todas as antíteses se fizeram presentes. As cargas opostas se atraíram como na Física, e houve a estabilidade, a neutralidade, o Zero. Não houve nada, nem o destruir nem o construir, houve apenas o
Equilíbrio.
O Mundo, então, voltou ao seu estado, que é positivo e negativo, branco e preto. E ninguém nunca teve conhecimento dessa paralisação do tempo a
não ser o homem e a mulher, que continuam no mesmo lugar da cidade até hoje, perdidos no que nós chamamos de tempo, mas que para eles não existe.
Para eles, o tempo para e passa o tempo todo e ninguém percebe, pois quando as horas voltam a andar é como se o longo período de uma hora, um dia, um ano ou uma eternidade em que tudo estivera congelado não houvesse existido.
E quem garante que você não acabou de ficar preso no tempo?