O conterrâneo estrangeiro e a xenofobia crescente

Este é meu primeiro texto no Medium, e como você deve ir notando não está lá essas coisas. Mas acho que o único jeito de melhorar é escrever mais, então eu tenho que começar de algum jeito e aprimorar conforme for possível. Críticas serão de ótima ajuda.

Meus pais me deram dois nomes, um brasileiro e um japonês. Esse é um hábito que se mostrou comum na comunidade de imigrantes que se estabeleceu no Brasil, principalmente em São Paulo. Quase toda a primeira geração nascida em solo brasileiro recebeu dois nomes, para que todos conseguissem pronunciar pelo menos um deles corretamente. Na minha geração, essa tradição se mostra menos presente, mas o curioso é que meu nome japonês é muito mais usado pelos brasileiros do que pela família oriental.

Hoje a maioria dos meus amigos e conhecidos brasileiros me chamam de Akira, enquanto os japoneses fazem uso do Gabriel. Isso ocorre porque Gabriel é muito comum no Brasil, e Akira no Japão. As pessoas então me chamam pelo nome raro, “exótico” por assim dizer. O engraçado é que ambos pronunciam esses nomes à sua maneira: os brasileiros akíra, com uma tonicidade típica do português, e os japoneses gaburieru, pois não fazem distinção entre L e R.

Gráfico do nascimento de pessoas com o nome Akira no Brasil, de acordo com os censos do IBGE

Ora, se meu diferencial está justamente no nome que possuo de outro país, isso significa que as pessoas veem como característica principal minha essa ligação externa, esse “conterrâneo estrangeiro”. Tal termo pode parecer paradoxal, mas é justamente o que acontece comigo em ambos os países, principalmente no Japão onde a miscigenação étnica é menor. As pessoas podem até saber que sou brasileiro e japonês, mas na prática me tratam como um “meio estrangeiro”.

Em tempos de crescente xenofobia ao redor do mundo, pessoas que se colocam entre dois ou mais países são afetadas de maneira diferente dos que de fato são estrangeiros. Quem se coloca entre duas nações sofre pressão para escolher uma delas, pois uma identidade plural vira sinônimo de traição. Um estadunidense de ascendência árabe ou um francês filho de argelinos é colocado numa categoria a parte, cada vez mais considerado estrangeiro em seu próprio país.

No Japão participei de um programa de rádio onde conversei com pessoas que se encaixam nesse perfil de identidade multicultural, e conheci Masaki Hashimoto, um japonês estadunidense que se mostrava apreensivo com a eleição de Donald Trump à presidência de seu outro país. Embora os japoneses não sejam exatamente as maiores vítimas de xenofobia nos Estados Unidos, a apreensão dele era bem além disso.

Por ser um país com bem menos imigrantes e miscigenação cultural, o Japão ainda tem muita dificuldade de lidar com pessoas “misturadas”, por assim dizer. Mais do que “conterrâneos estrangeiros”, por lá muitas vezes somos tratados como estrangeiros de fato. Por conta disso, países como Brasil e Estados Unidos sempre foram mais gentis para reconhecer a dualidade de pessoas como o Senhor Hashimoto, apesar de todo o racismo e xenofobia. Deste modo, o que realmente o afligiu na figura de Trump não foi a ameaça à sua pessoa, e sim o que isso representa num mundo com fronteiras cada vez mais fortes.

Se a tendência for mantida, nem o status de “conterrâneo estrangeiro”, que já era ruim, será permitido. Numa lógica xenofóbica e nacionalista, não é possível ser duas coisas; na verdade, não é permitido nem escolher e ser uma só delas. Nessa lógica, alguém que se identifique com dois países é sempre visto como estrangeiro, não importa em qual país estiver. E o mundo xenofóbico não costuma tratar bem os estrangeiros.

Espero que as divagações tenham interessado, entretido ou pelo menos intrigado. Pretendo escrever de maneira mais objetiva sobre esse e outros temas envolvendo nacionalidade, Japão e identidade daqui para frente. Se gostou, clica no coração e se tiver algo a dizer, comentários são excelentes contribuições.

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