Relógios quebráveis e relógio inquebrável

Desde criança sou fascinado por relógios, principalmente relógios de pulso. Aprendi a ler as horas aos 4 anos, no relógio da cozinha lá de casa. Olhava para aqueles ponteiros e não conseguia encontrar nenhuma lógica neles, então perguntei à minha mãe. Deve ter sido a única vez que minha mãe me ensinou algo relacionado a números, porque ela é uma pessoa aversa às Ciências Exatas.
Não me lembro do meu primeiro relógio, mas sei que ele quebrou. Até uns 9 anos, usei alguns relógios analógicos, mas não eram muito bons. Houve um momento, porém, em que eu comecei a ter algum dinheiro próprio, e entendi que relógios são caros. E são especialmente caros no Brasil.
Daí comprei um relógio no exterior, digital e cheio de coisas normais para um relógio digital, mas que para mim pareciam algo do futuro. Esse relógio durou 1 ano, mas sua pulseira de plástico rasgou e ele se tornou inutilizável. Quando voltei à loja 6 meses depois, me falaram que seria mais barato comprar outro relógio do que consertar o primeiro (ah, o consumo!). Então tive um segundo relógio digital, que além de tudo era movido a energia solar.
Contudo, sua vida foi tão curta que poderia ter sido movido a bateria. Deixei ele molhar depois de alguns meses e lentamente seus números foram se apagando.
Cansado de relógios digitais, achando que eram muito complexos e tinham problemas, no ano passado decidi comprar um relógio analógico. Modelo bem simples, mas bem bonito. Parecia a escolha certa, o tipo de relógio que duraria anos. Durante 12 meses, foi um fiel companheiro que eu consultava até mesmo sem necessidade, só para admirá-lo. Mas num belo dia, a parte de plástico na qual a pulseira se ligava quebrou, e eu fui incapaz de consertá-la.
Desde então, dependo desses relógios feios, sem vida e que são apenas complementos de outras coisas: o do celular, o do computador, até um que vem acoplado à minha calculadora. Não sei se o problema sou eu, ou se os relógios não gostam de mim. Eu sei que os amo, e vou continuar perseguindo-os.
Talvez o único relógio inquebrável seja meu coração, que consegue contar os segundos que faltam para te ver.