Trote Universitário: não é só isso

Campanha da UFMG no Campus Pampulha; foto por Lucas Oliveira

Leia este texto de cabeça aberta, com olhar crítico para refutar e justo para concordar no que for necessário. O tema é polêmico, mas o objetivo de uma discussão não deve ser vencê-la, e sim chegar à melhor conclusão. Não tenha medo de mudar.

O trote é uma prática antiga, que remonta à Idade Média e que foi trazido pelos portugueses para o Brasil. Existiu e existe em vários formatos e vem sendo problematizado em diversas universidades por conta da violência que acaba gerando em alguns casos. Alguns trotes são mais violentos que outros, e devido a essa ampla variação fica difícil definir que tipo de interação entre veterano e calouro pode ser considerada trote. O Grande Dicionário Houaiss define trote como:

Rito de passagem (nas universidades, academias militares etc.) em que os veteranos impõem tarefas ou comportamentos ridículos ou penosos aos calouros.

Em uma resolução recente, de 2014, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) proibiu tal prática, que entende como qualquer atividade que:

1. Envolva agressões físicas e morais ou incite pessoas a praticá-las;
2. Lese o patrimônio público ou privado ou que cause transtorno às atividades didáticas e acadêmicas;
3. Envolva coação física ou psicológica, ridicularização, humilhação ou menosprezo à dignidade humana;
4. Obrigue ou coaja à ingestão de bebida alcoólica ou de qualquer outra substância;
5. Obrigue a cobrir o corpo com vestimentas, acessórios ou com qualquer substância;
6. Evidencie opressão, preconceito ou discriminação e reforce falsa hierarquia entre gêneros, cursos, áreas ou entre veteranos e calouros;
7. Evidencie intolerância política, ideológica ou religiosa.

Particularmente, acredito que o item 6 aponta de forma precisa uma característica do trote. Ele existe dentro de uma lógica de falsa hierarquia entre veteranos e calouros, sendo ela uma característica necessária para a prática. Nem todos os trotes terminam com alguma tragédia, mas muitos sim. Na verdade, muitas tragédias acabam não sendo narradas, pois há forte pressão e coerção que podem causar danos que podem ir desde uma alergia a tinta até a morte.

Essas tragédias, tanto as pequenas quanto as grandes, são resultado direto da relação de poder que o veterano exerce sobre o calouro. No trote, os organizadores se sentem deuses, no direito de mandar e desmandar quando quiserem, pois uma vez naquele ambiente os participantes são obrigados a obedecer. Um ambiente com pessoas que não têm nenhum tipo de limite sobre suas vontades e conseguem fazer tudo o que desejarem é extremamente propício para violências de diversos tipos (verbal, sexual, física, emocional).

É claro que, provavelmente (ou assim espero), as pessoas lesadas são minoria. O trote continua a existir porque também muitos calouros gostam da prática e veem-na como uma boa forma de interação com veteranos, além de um rito importante que cria o sentimento de pertencimento à universidade. Entretanto, é preciso ressaltar que um trote 100% seguro é impossível devido à própria natureza dele; sempre haverá a possibilidade de alguém mal-intencionado, ou das coisas fugirem de controle. Normalmente, o calouro já sofre uma intimidação natural do veterano por este último ser colocado pela sociedade como alguém mais importante, ou seja, a coerção pode ocorrer sem que aquele que coage perceba.

Mas, novamente, a grande questão dessa prática é aquela descrita no item 6 da resolução supracitada. Qualquer hierarquia é problemática, pois faz um ranking de pessoas mais importantes e menos importantes, estabelecendo uma relação de domínio e construindo privilégios. A relação de poder entre veteranos e calouros suprime os pensamentos destes, moldando-os, e alimenta o desrespeito, a intolerância e a manifestação de outros preconceitos já existentes na sociedade. Em algumas pessoas, isso pode causar sérios problemas. Nessa falsa hierarquia, os de cima sentem que podem fazer qualquer tipo de abuso físico ou psicológico, e os de baixo tendem a se colocar abaixo para não sofrerem represálias ao desafiar a lógica hierárquica.

Muitas faculdades e cursos universitários têm recentemente adotado posturas mais duras no que tange aos trotes violentos. Parcelas do movimento estudantil têm repudiado atos que refletem as discriminações sociais dentro do trote, como LGBTfobia, racismo e machismo. Pressionadas, as reitorias e diretorias também caminham devagar para resoluções como a da UFMG. Mesmo assim, essa mesma universidade levou mais de um ano para punir os responsáveis pelo trote de caráter racista e nazista que ocorreu na Faculdade de Direito, e ainda assim sem expulsar todos os organizadores.

Apenas um estudante foi expulso, e outros três participantes suspensos

De qualquer forma, é preciso entender que o problema não é apenas o trote que alcança esse nível de violência, porque ele é resultado da lógica que rege qualquer tipo de trote. Trata-se de uma hipérbole da “brincadeira sem danos” de jogar tinta. E é por isso que qualquer tipo de trote acaba sendo violento, porque alimenta a falsa hierarquia e cria um ambiente extremamente propício a abusos por parte dos veteranos. As pessoas que lutam por um trote mais humanizado têm boas intenções, mas é preciso ir além; é preciso defender o fim de todo e qualquer trote e punição efetiva para os praticantes.

Mesmo o mais humanizado dos trotes ainda é uma prática que funciona com o domínio do veterano sobre o calouro. Existem interações mais saudáveis, estas sim humanizadas, que não alimentam essa relação de poder. Uma calourada sob controle, uma cerveja no bar ou mesmo puxar uma conversa nos corredores pode ajudar bem mais, e dentro de uma abordagem amigável e honesta. Se a tinta for algo tão necessário, a mudança é simples: basta os calouros também jogarem tinta nos veteranos, tirando o caráter de domínio do trote e criando um ambiente mais saudável.

O trote é só mais uma das várias tradições medievais problemáticas que a Humanidade conserva. A mudança cultural leva tempo, mas é preciso começar já, com cada um das comunidades acadêmicas.

Um pouco da minha singela opinião sobre o tema. O debate é muito bem vindo, embora ataques pessoais não. Deixe um comentário e clique no coração se gostou do texto.