Uber e a economia colaborativa nos tempos de crise

Compartilhar, emprestar, alugar e trocar. Tudo isso é possível por meio da economia colaborativa (também conhecida como economia compartilhada), uma nova forma de fazer negócio entre pessoas, economizar e promover a sustentabilidade. A atual situação econômica mundial, refletida em estados à beira da falência e nas altas taxas de desemprego, tem feito com que as pessoas busquem alternativas para manter o mesmo padrão de vida pré-crise. Uma das saídas é o consumo colaborativo que de acordo com a autora do livro O que é meu é seu, Rachel Botsman, consiste em 3 tipos possíveis de sistemas:
1. Mercados de redistribuição: ocorre quando um item usado passa de um local onde ele não é mais necessário para onde ele é. 
2. Lifestyles colaborativos: baseia-se no compartilhamento de recursos, tais como dinheiro, habilidades e tempo.
3. Sistemas de produtos e serviços: ocorre quando o consumidor paga pelo benefício do produto e não pelo produto em si. Tem como base o princípio de que aquilo que precisamos não é um CD e sim a música que toca nele, o que precisamos é um buraco na parede e não uma furadeira, e se aplica a praticamente qualquer bem.

Atualmente a noção de possuir perde importância diante da oportunidade de acesso. Em um mundo globalizado, a tecnologia avança em alta velocidade, fazendo com que produto e informação se tornem obsoletos, facilitando o acúmulo de objetos. Em uma sociedade capitalista, onde se incentiva a compra, nadar contra a corrente começa a fazer sentido. Adotar uma nova forma de consumir e ter acesso ao que se deseja durante o tempo necessário, agrega valor à experiência em detrimento apenas do ter.

O professor de Direito Econômico da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Ricardo Camargo ajuda a compreender a proposta e explica que na economia colaborativa a forma de acesso através da posse temporária de algo é mais importante do que a propriedade.

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A revolução tecnológica possibilita as relações de transação e transforma os padrões de consumo, pois aumenta a reputação positiva e a confiança em um produto ou serviço a partir das avaliações dos usuários, que através de seus cadastros, podem opinar sobre a qualidade dos serviços e produtos. Por esta razão, muitas pessoas, em diferentes regiões do mundo, encontraram na economia colaborativa uma maneira idônea de obter os produtos e os serviços de que necessitam, sem se comprometer financeiramente.

A internet, a geolocalização, a portabilidade e a sociabilidade das novas tecnologias criaram uma nova geração de cidadãos capazes de alcançar diferentes esferas de serviços com apenas um toque ou clique. De acordo com o professor de economia da UFRGS Giácomo Balbinotto são esses alguns dos componentes técnicos e culturais que servem como base para a solidificação de uma nova maneira de fazer negócios e de firmar as relações interpessoais através do intercâmbio de bens e serviços. A era da economia colaborativa supõe uma mudança cultural, já que é uma economia de acesso na qual se pode encontrar desde motoristas particulares e trabalhadores domésticos até alojamento e quartos de hotel ao redor do mundo.

“A economia colaborativa na realidade tem sido desenvolvida a partir do grande acesso que teve a internet e o desenvolvimento de uma tecnologia que as pessoas pudessem fazer as suas compras e uma interação que tivesse um grande número de aplicativos e celulares numa rede disponível e com uma relativa velocidade”, afirma. Para ele este modo de fazer negócios esta diminuindo os custos de transação para os indivíduos envolvidos, principalmente para os consumidores finais.

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Com a situação política e econômica brasileira, de acordo com a ideia da economia colaborativa, setores que oferecem soluções inovadoras nos setores da alimentação, moradia e mobilidade tendem a se expandir, conforme a tendência observada nos Estados Unidos e na Europa durante a crise financeira de 2008. O futuro é a solidariedade entre os cidadãos. O verdadeiro potencial do modelo de economia reside na integração de várias pessoas no processo de geração de valor, tanto econômico quanto social. Ao estabelecer que cada indivíduo pode trabalhar em uma área diferente de especialização, existe um potencial infinito de possibilidades de criação, inovação e, inclusive, empoderamento financeiro em pequenos, médios e grandes projetos.

Uma pesquisa da Market Analysis, especializada em comportamento do consumidor, mostrou que pelo menos um em cada cinco brasileiros está familiarizado com esse conceito. Enquanto isso, um estudo do Instituto Data Popular afirma que 91% dos brasileiros reduziram o consumo em 2015. O Brasil hoje já é considerado o líder entre os mercados latino-americanos em iniciativas de serviços compartilhados, segundo um relatório da IE Business School, feito em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

Algumas pesquisas já tentaram mapear o potencial dessa economia e a expectativa é que os ganhos sejam cada vez maiores. Segundo dados da PWC, a projeção de movimentação global indica uma tendência em 2025 de uma movimentação de US$ 335 bilhões. Já um estudo da consultoria Nielsen em 2013 mostrou que 70% das pessoas na América Latina estariam dispostas a participar de serviços de compartilhamento, contra 52% na América do Norte.

Entretanto, existem ainda muitos questionamentos à medida que este modelo econômico se expande. Posturas críticas que se opõem surgem em alguns setores, já que alguns empresários tradicionais consideram os aplicativos e os sites uma concorrência desleal. No caso do Uber (serviço que permite a solicitação de motoristas particulares diretamente através de um aplicativo para Smartphones), foram polêmicas as manifestações e os protestos por parte de motoristas de táxi que chegaram a resultar em agressões físicas e depredações de veículos. O professor de economia Balbinotto explica alguns motivos da disputa entre taxistas e motoristas do Uber e os benefícios que a concorrência pode causar.

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O consumo colaborativo só tende a amadurecer no Brasil, onde sua aceitação e aderência é crescente por facilitar o acesso a diferentes produtos e serviços a baixo custo para o consumidor final. Com a escassez de oportunidades no mercado de trabalho, cada vez mais pessoas buscam oportunidades dentro desta nova área em expansão. Sendo assim, o consumo colaborativo é uma tendência mundial sem caminho de volta para os padrões antes vistos.