DR
A injustiçada discussão de relacionamento, popularmente conhecida como DR, remonta os tempos.
Imagina a celeuma que se deu no Jardim do Éden, quando Adão e Eva tinham que decidir se comeriam ou não a maçã. Dizem que a serpente já estava impaciente e fazendo cara de náusea, enquanto Eva levantava toda sorte de questões que envolviam a vida pregressa de Adão. E olhe que eles estavam sozinhos no paraíso, não havia nem uma “fulaninha” extra, ou seja, a infidelidade era algo fora de questão.
Digo injustiçada porque a DR é um mal necessário à preservação do convívio a dois, e normalmente seria uma forma saudável de dissipar possíveis mal-entendidos e evitar acúmulo de mágoas para questões futuras.
Então, se a DR fosse praticada com mais frequência e de uma forma tranquila, aquela bola de neve de críticas que se forma desde o dia em que vocês se conheceram não cairia na sua cabeça de uma vez só. Viria em suaves floquinhos esporádicos, ao longo dos anos. O estrago seria bem menor.
O problema é que as pessoas não sabem discutir. Principalmente quando a pauta é a relação porque, nesse caso, você tem como opositor uma figura que ocupa a posição de promotor e de juiz ao mesmo tempo. O próprio inferno na terra! Imagina alguém que te acusa e que depois é responsável por julgar a procedência das próprias acusações. Socorro!
A essa altura você, completamente desesperado, começa a se defender com unhas e dentes. Acuado na parede, você clama por inocência, diz que não foi bem assim. Mas NINGUÉM, amigo, NINGUÉM vai ouvir. O máximo que você vai conseguir é um irônico “ah, mas você sempre é o inocente...”, só vai faltar algo como “todos são assim na cadeia” para você se sentir o próprio estelionatário.
Por isso é que as pessoas têm pavor de DR e adotam a linha Maquiavel, fazem o mal numa tacada só. É um enorme tsunami que se forma a partir de um pelo no sabonete e arrasta quem você é e o que faz desde 1995.
Pois é. Se a intenção é exercitar a raiva, e não a compreensão desse universo complexo que é o outro, o melhor mesmo é acumular tudo e deixar para gritar de uma vez só, quando o limite der seus sinais de que está nas últimas.